Neste domingo (28/03) começa a grande semana litúrgica que nos conduz à Páscoa: morte e ressurreição do Senhor, centro da nossa fé cristã. A Semana Santa é um momento de profundas vivências religiosas; o mistério de Deus “dado por nós” e a força da sua ressurreição, como disse São Paulo, nos convocam perante à cruz que é o triunfo do amor sobre o ódio, a esperança em um tempo de desespero.

A liturgia do Domingo de Ramos, também chamado Domingo da Paixão, ilumina o nosso caminho quaresmal através da proclamação de dois evangelhos, ambos de São Marcos. No mesmo dia somos convidados a reviver a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e acompanhar os últimos momentos de sua vida. Com esta celebração entramos na grande semana que dá sentido à nossa fé, a Semana Santa.

Na primeira parte participamos da procissão dos ramos. São Marcos narra a recepção alegre e festiva que o povo de Jerusalém dá ao Messias-Salvador. No homem sentado em um jumentinho, a multidão reconhece o Rei Messias e proclama: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor. Bendito seja o reino que vem”.

Depois vamos acompanhar a longa leitura da Paixão que relata os gritos de alegria dos peregrinos transformando-se em gritos de ódio: “Crucifica-o” (15, 13). Não há aqui uma contradição, mas é o coração do mistério. O mistério que se quer proclamar é este: Jesus se entregou voluntariamente a sua Paixão; não se sentiu esmagado por forças maiores do que ele: Ninguém tira a minha vida, eu a dou livremente (Jo 10,18). Foi o próprio Jesus que acolhendo a vontade do Pai, compreendeu que havia chegado a sua hora e, obedientemente, cumpriu o seu papel de Filho e, com infinito amor, aceitou o destino que lhe era reservado: morrer na cruz para salvar a humanidade.

Relendo o evangelho da procissão de ramos no início desta liturgia, e meditando sobre ele, aparecem semelhanças entre Cristo e o jumentinho que o carrega: humildade, pobreza, mansidão. Além disso, São Marcos escreve “encontrareis um jumentinho que nunca foi montado” (Mc 11,2), que simboliza a pureza e a inocência do jumentinho onde se senta o “Príncipe da Paz”. Todo seguidor de Jesus deve ser o portador da paz, carregar nos ombros o Príncipe da Paz e manifestá-lo com sua palavra e ações.

Se, pelo menos, no final desta Semana Santa deste ano especial e sofrido todo o batizado dizer com o centurião – “Na verdade, este homem era o Filho de Deus” – será um sinal de que vivemos intensamente a Quaresma e compreendemos a necessidade da conversão que nos levará a uma mudança de vida e a um maior seguimento de Cristo Ressuscitado na noite santa da Vigília Pascal.

Cristo colocou em risco a credibilidade dos sistemas político, econômico e religioso da época de forma pacífica, chegando à morte, pelo fato de acreditar na pessoa, na vida e nos valores que a conduzem à paz. Hoje sabemos que o desejo de Cristo ainda não está plenamente realizado. Há muitos que impedem que o reino da justiça, da paz, da vida e do amor alcance a plenitude do projeto de Deus em Cristo: a construção do Reino de Deus entre nós e para nós.

Neste domingo somos convidados a realizar o gesto concreto da Campanha da Fraternidade Ecumênica “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” – “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade”, através da oferta de doações em dinheiro na Coleta da Solidariedade. É um sinal real de amor, partilha e solidariedade, feito em âmbito nacional, em todas as comunidades cristãs católicas, paróquias e dioceses. A Coleta da Solidariedade é parte integrante da Campanha da Fraternidade. Ela deve expressar o empenho quaresmal de conversão. Por meio deste gesto concreto, a Igreja dá um testemunho de fraternidade e aponta o caminho cristão da partilha (cf. At 2,45) para a superação das grandes desigualdades presentes nas estruturas da sociedade brasileira. Todas as doações financeiras realizadas pelos fiéis farão parte do Fundo Nacional de Solidariedade.

Dom João Carlos Seneme, css

Bispo de Toledo