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Toledo debate recolhimento de carcaças de animais e busca solução para problema sanitário que preocupa suinocultores há 20 anos

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Toledo debate o recolhimento e a destinação adequada de carcaças de animais mortos, buscando mais segurança sanitária, preservação ambiental e melhores condições de trabalho para os produtores rurais. Foto: Gazeta de Toledo

Da Redação

Reunião promovida pela Secretaria Municipal de Agricultura e Proteína Animal reúne autoridades, especialistas e representantes do setor produtivo para discutir a destinação segura de até 50 toneladas diárias de animais mortos no município. Resistência de integradoras, riscos sanitários e alternativas de industrialização estão entre os principais temas

A destinação das carcaças de animais mortos nas propriedades rurais, uma preocupação que acompanha a suinocultura há aproximadamente duas décadas, ganhou destaque nesta quarta-feira (21), em Toledo. A Secretaria Municipal de Agricultura e Proteína Animal promoveu uma reunião técnica no Auditório Acary Oliveira, anexo ao Paço Municipal, para discutir alternativas de recolhimento, transporte e processamento desse material, com foco na biossegurança, na saúde pública, na preservação ambiental e nas condições de trabalho dos produtores rurais.

O encontro contou com a previsão de participação de representantes da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), integradoras, prefeituras de municípios vizinhos, Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Instituto Água e Terra (IAT) e Associação Regional de Suinocultores do Oeste do Paraná (Assuinoeste), além de contribuições técnicas da Embrapa.

A discussão ganha relevância pela dimensão da suinocultura toledana, uma das principais atividades econômicas do município e responsável por parcela expressiva da produção agropecuária regional.

Toledo produz até 50 toneladas diárias de carcaças

O secretário municipal de Agricultura e Proteína Animal, Luiz Carlos Bombardelli, destacou que o município possui aproximadamente 950 mil suínos em estoque estático destinados ao abate. Considerando também os animais em crechários e as matrizes, esse número chega a aproximadamente 1,2 milhão de suínos.

Segundo Bombardelli, a mortalidade animal faz parte do processo produtivo, mesmo em condições normais de criação. Os índices podem variar conforme a categoria e a fase de desenvolvimento dos animais, podendo aumentar em situações de enfermidades.

O secretário revelou números que demonstram a dimensão do desafio.

“Em Toledo, estamos falando de aproximadamente 45 a 50 toneladas de carcaças por dia. No restante do Paraná, esse volume chega a cerca de 280 toneladas diárias. É uma quantidade muito expressiva de animais que precisam receber uma destinação ambiental e sanitariamente correta”, afirmou.

Atualmente, as propriedades utilizam diferentes métodos para a destinação dos animais mortos, entre eles a compostagem, o rotacelerador e equipamentos de desidratação.

Entretanto, o recolhimento clandestino preocupa as autoridades, principalmente pelos possíveis riscos de disseminação de agentes causadores de doenças e contaminação de outras propriedades.

“Essa é a situação mais grave, porque coloca em risco toda a biossegurança das propriedades e da atividade pecuária”, alertou Bombardelli.

Industrialização pode transformar problema em oportunidade

Uma das alternativas apresentadas durante as discussões é o recolhimento legalizado das carcaças por empresas especializadas, com posterior processamento industrial.

O presidente da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), Pedro Daniel Bittar, explicou que a tecnologia permite transformar materiais que seriam descartados em produtos com valor agregado.

Entre as possibilidades estão a obtenção de gordura destinada à produção de biodiesel e o aproveitamento de outros componentes para a fabricação de bioinsumos, fertilizantes e geração de energia, conforme as exigências técnicas e legais.

Segundo Bittar, vários países já avançaram na adoção de sistemas industriais de destinação de carcaças, reduzindo a necessidade de manipulação direta dos animais mortos pelos trabalhadores rurais.

O dirigente ressaltou que a compostagem continua sendo uma alternativa válida, desde que realizada corretamente, mas defendeu a ampliação das opções disponíveis aos produtores.

“Não estamos dizendo que os produtores devem abandonar a compostagem. Existe espaço para diferentes tecnologias e procedimentos, desde que sejam realizados corretamente e dentro das normas sanitárias e ambientais”, explicou.

De acordo com o presidente da ABRA, uma empresa instalada na região Oeste do Paraná desenvolveu um sistema de processamento de carcaças após aproximadamente dois anos de preparação e procedimentos para obtenção das autorizações necessárias.

Bittar também destacou que, conforme a proposta apresentada, o recolhimento seria realizado sem cobrança pelo serviço ao produtor rural, diferentemente de modelos adotados em outros países.

Representantes do setor produtivo e autoridades acompanham apresentação técnica sobre o recolhimento e a destinação adequada de carcaças de animais, durante reunião realizada em Toledo. Foto: Gazeta de Toledo

ABRA alerta para denúncias de destinação irregular

Um dos pontos mais preocupantes levantados pelo presidente da ABRA envolve informações sobre possíveis irregularidades na destinação de carcaças de animais mortos.

Bittar afirmou que a entidade recebeu relatos e informações que, segundo ele, estariam documentados, indicando que parte desse material poderia estar sendo encaminhada para finalidades não permitidas, em vez de receber destinação sanitária adequada.

O dirigente mencionou suspeitas de utilização irregular de carcaças em processos relacionados à alimentação humana e animal.

“Não estamos falando apenas de riscos para o meio ambiente, mas também para a sanidade dos rebanhos e para a saúde humana. Se isso estiver realmente acontecendo, estamos diante de uma situação extremamente grave”, declarou.

Bittar afirmou ainda que existem denúncias encaminhadas às autoridades competentes, nas esferas federal e municipal.

As informações apresentadas pelo dirigente constituem denúncias e suspeitas, não havendo, nos relatos disponibilizados à reportagem, comprovação independente das irregularidades mencionadas. Eventuais responsabilidades dependem de apuração pelos órgãos fiscalizadores.

Suinocultores cobram solução para demanda de duas décadas

O presidente da Associação Regional de Suinocultores do Oeste do Paraná (Assuinoeste), Delmar Briccius, foi enfático ao defender mudanças no sistema de destinação dos animais mortos.

Segundo ele, a reivindicação dos produtores existe há praticamente 20 anos e está diretamente relacionada às condições de trabalho dentro das propriedades.

“Essa é uma demanda antiga. O produtor não quer mais precisar esquartejar os animais mortos para realizar a compostagem. É um trabalho extremamente desagradável e que, muitas vezes, coloca o trabalhador em uma situação degradante”, afirmou.

Briccius explicou que o manejo tradicional exige mão de obra e representa custos adicionais para o suinocultor, além das dificuldades sanitárias e operacionais.

O dirigente afirmou que, na avaliação da entidade, a adesão ao recolhimento legalizado teria apoio de praticamente 99% dos produtores. O percentual foi apresentado pelo presidente da associação, sem detalhamento de pesquisa formal.

Entretanto, segundo ele, a implantação enfrenta resistência de algumas empresas integradoras.

“Hoje, quando o animal está vivo, ele pertence à integradora. Entretanto, quando esse animal morre, o problema acaba ficando exclusivamente com o suinocultor, que precisa encontrar uma solução para a destinação da carcaça. E nós não concordamos com isso”, declarou.

O presidente da Assuinoeste defendeu que as integradoras também participem da construção de alternativas para o problema.

“Se as integradoras não querem aceitar o recolhimento legalizado realizado por empresas especializadas, então que elas próprias assumam a responsabilidade pelo recolhimento desses animais”, argumentou.

Briccius afirmou que a entidade pretende continuar defendendo a proposta e buscando o diálogo com as empresas.

“Não pretendemos retroceder, porque se trata de uma demanda histórica dos suinocultores”, reforçou.

Foto: Gazeta de Toledo

Estudos da Embrapa são citados como respaldo técnico

Outro argumento apresentado em defesa do recolhimento industrializado envolve estudos técnicos acompanhados pela Embrapa em Santa Catarina.

Segundo Delmar Briccius, experiências desenvolvidas naquele estado foram acompanhadas durante aproximadamente dez meses e indicaram riscos mínimos de contaminação quando os procedimentos foram realizados dentro dos critérios técnicos estabelecidos.

O presidente da Assuinoeste considera que esses resultados podem contribuir para esclarecer dúvidas das integradoras, especialmente em relação à biossegurança.

Ele também mencionou a existência de uma empresa instalada em Nova Aurora, no Oeste do Paraná, habilitada, segundo suas declarações, a realizar o processamento de carcaças de suínos.

Investimento em refrigeração é um dos desafios

Para permitir a implantação do recolhimento programado, as propriedades precisam contar com equipamentos adequados para armazenar temporariamente os animais mortos.

Luiz Carlos Bombardelli explicou que a instalação de refrigeradores específicos pode representar uma solução prática para os produtores.

Segundo o secretário, os equipamentos permitem conservar as carcaças durante cinco ou seis dias, dependendo das condições de operação e das exigências sanitárias, até que o recolhimento seja realizado.

A medida reduziria a manipulação de animais em decomposição e permitiria uma programação mais eficiente do transporte.

Bombardelli ressaltou que muitas propriedades já apresentam boa estrutura, especialmente aquelas vinculadas aos sistemas de integração, mas reconheceu que o investimento inicial pode dificultar a adesão de alguns produtores.

“Se houvesse algum incentivo governamental ou apoio de órgãos públicos para auxiliar os produtores nesses investimentos, isso contribuiria muito para a implantação e ampliação desse sistema”, afirmou.

Município busca reduzir dificuldades de quem produz

O secretário destacou que a iniciativa está alinhada às ações da administração municipal voltadas à melhoria das condições de trabalho no campo.

Bombardelli lembrou que Toledo tem posição de destaque no Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP), resultado da força de sua cadeia produtiva, especialmente da proteína animal.

Segundo ele, a responsabilidade do poder público não se limita à valorização dos resultados econômicos, mas também envolve a busca de soluções para os desafios enfrentados diariamente pelos produtores.

“Temos projetos voltados ao manejo dos dejetos, à destinação das carcaças, à melhoria das vias de acesso e a diversas outras necessidades das propriedades rurais. Nosso objetivo é proporcionar mais tranquilidade, segurança e qualidade de vida aos produtores”, afirmou.

Desafio é construir entendimento entre todos os setores

A reunião desta quarta-feira representa mais uma etapa na busca de entendimento entre produtores, empresas integradoras, entidades representativas, órgãos de fiscalização e poder público.

Embora a compostagem continue sendo uma alternativa utilizada na suinocultura, a possibilidade de industrialização das carcaças surge como uma opção para reduzir o trabalho de manipulação dos animais mortos, ampliar o controle sanitário e permitir o aproveitamento econômico de materiais que exigem destinação adequada.

O principal desafio, entretanto, permanece na construção de um modelo aceito pelos diferentes segmentos da cadeia produtiva, com definição de responsabilidades, atendimento às exigências legais e garantia de segurança sanitária.

Para um município que reúne aproximadamente 1,2 milhão de suínos em estoque estático e gera, segundo estimativas da Secretaria Municipal de Agricultura e Proteína Animal, até 50 toneladas de carcaças diariamente, o tema ultrapassa os limites das propriedades.

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