Depois de meses de espera, idas e vindas e muita expectativa nos bastidores, a Câmara Municipal de Toledo finalmente divulgou a classificação provisória da concorrência para contratação das agências que deverão cuidar da publicidade institucional do Legislativo.
O processo, que começou ainda em 2025, chega agora a uma etapa decisiva. Quatro empresas seguem na disputa, uma foi desclassificada na proposta de preços e outra já havia ficado pelo caminho na avaliação técnica.
Agora, resta saber se a novela termina por aqui ou se teremos novos capítulos jurídicos. E, principalmente, se, depois de tanta demora, a Câmara vai entender que publicidade institucional não pode ser apenas uma ferramenta de promoção do próprio Legislativo. Comunicação pública também precisa contemplar quem está na rua, cobrindo a política e levando a informação ao cidadão.
Na frente
A Action Publicidade terminou a fase de propostas de preços na primeira colocação, com nota final de 105,63 pontos.
Logo atrás veio a Fabrika, com 105,17. Diferença de apenas 0,46 ponto. Ou seja: até na publicidade a disputa está apertada.
Quase empatadas
A Dudacom Marketing Integrado ficou em terceiro lugar, com 101,88 pontos.
A Blanco Lima Comunicação e Marketing terminou na quarta colocação, com 77,10 pontos.
A distância entre as três primeiras colocadas é relativamente pequena. A decisão final, portanto, ainda pode render alguma movimentação.
Uma pelo caminho
A Zipp Publicidade teve a proposta de preços desclassificada, conforme os fundamentos registrados na ata da terceira sessão pública.
Já a Hey Propaganda não chegou à fase de preços. Foi desclassificada anteriormente, no julgamento das propostas técnicas.
Ainda não acabou
Calma. A classificação é provisória.
O prazo para apresentação de recursos termina às 23h59 do dia 9 de setembro. Portanto, quem imaginou que a novela da publicidade da Câmara havia chegado ao último capítulo talvez tenha se precipitado.
Em licitação, comemorar antes da hora costuma ser um esporte de risco.
A herança da pressa
O processo também chega ao seu estágio atual depois de um período em que a condução da publicidade do Legislativo esteve no centro de críticas e discussões políticas.
A gestão anterior, comandada pelo então presidente Dudu Barbosa, foi alvo de questionamentos justamente pela condução dos recursos destinados à publicidade e pela intenção de acelerar a utilização da verba prevista para um período mais longo.
Agora, a nova gestão terá a oportunidade de mostrar que aprendeu com os problemas do passado.
E a imprensa?
Essa é uma pergunta que interessa bastante à imprensa local.
Com a contratação de uma agência, começa também a expectativa sobre como será feita a distribuição da publicidade institucional.
Que não se repita aquela velha fórmula em que a verba pública de comunicação serve para falar muito bem do poder e pouco para fortalecer os veículos que efetivamente acompanham o poder.
A imprensa local está aqui todos os dias. Cobre sessão, acompanha comissão, fiscaliza vereador, entrevista presidente da casa, prefeito, publica denúncia e também dá espaço para as boas ações.
Contrapartida
Depois de meses de espera, seria razoável esperar que a nova política de publicidade do Legislativo venha acompanhada de critérios claros, transparência e, sobretudo, uma efetiva contrapartida aos veículos locais.
Porque publicidade institucional não é favor.
É recurso público destinado à comunicação com a sociedade.
E, se existe dinheiro para comunicar, que se comunique de verdade — inclusive através de quem está diariamente fazendo jornalismo em Toledo.
Agora vai?
Tomara.
Depois de tanta demora, o mínimo que se espera é que a concorrência siga seu curso, sem novas paralisações, e que o Legislativo finalmente tenha uma política profissional de comunicação.
E que a próxima notícia sobre publicidade da Câmara seja sobre campanha, informação e transparência.
Não sobre mais um capítulo da novela da licitação.
EMDUR cresce no papel. E as contas?

A EMDUR está aumentando seu campo de atuação. A Resolução nº 001/2026, publicada no Órgão Oficial desta quinta-feira, amplia e formaliza uma série de atividades econômicas da empresa municipal.
Construção civil, demolição, instalações elétricas e hidráulicas, fabricação de artefatos de cimento, coleta e tratamento de resíduos, cemitérios, terminal rodoviário e paisagismo passam a integrar, por meio de CNAEs específicos, o leque de atividades da empresa.
É uma ampliação importante de responsabilidades.
E justamente por isso surge uma pergunta inevitável: se a EMDUR vai fazer mais, como estão as contas da empresa?
A resposta apresentada nesta semana na Câmara Municipal, pelo menos para quem acompanhou a audiência pública, ficou longe de encerrar o assunto.
Um semestre de R$ 3,6 milhões no vermelho
Uma das planilhas apresentadas pela própria EMDUR mostra que, entre janeiro e junho de 2026, a empresa registrou R$ 21.636.110,71 de receita líquida e R$ 25.253.219,39 em despesas e custos.
Resultado acumulado: prejuízo de R$ 3.617.108,68 no primeiro semestre.
Dos seis meses analisados, quatro terminaram no vermelho.
Janeiro registrou superávit de R$ 351,6 mil. Fevereiro virou para déficit de R$ 726,3 mil. Março fechou negativo em R$ 534,7 mil. Abril foi o pior mês, com déficit de R$ 1,975 milhão. Maio também apresentou perda de R$ 1,333 milhão. Apenas junho voltou ao azul, com resultado positivo de R$ 601,5 mil.
Não se trata, portanto, de uma pequena oscilação contábil. O semestre terminou com despesas aproximadamente 16,7% superiores às receitas líquidas apresentadas naquela planilha.
Receita parece uma montanha-russa
Outro dado chama bastante atenção. A receita líquida variou violentamente de um mês para outro:
de janeiro para fevereiro, caiu cerca de 29,4%;
de fevereiro para março, aumentou quase 32%;
de março para abril, caiu 26,6%;
de abril para maio, subiu 18,2%;
e de maio para junho saltou impressionantes 64,7%.
Junho teve receita líquida de R$ 5,272 milhões. Abril, apenas dois meses antes, havia registrado R$ 2,709 milhões.
É praticamente o dobro.
Isso não significa automaticamente “ociosidade”. Seria tecnicamente precipitado afirmar isso somente olhando a planilha. A EMDUR trabalha com obras, contratos e medições, e receitas podem ser reconhecidas conforme execução, medição e faturamento.
Mas exatamente por isso a apresentação deveria explicar a variação.
Quais contratos produziram o salto de junho? Por que fevereiro e abril ficaram tão abaixo? Houve períodos de equipes ou equipamentos ociosos? Houve atraso em medições? Faturamentos foram concentrados em determinados meses?
A planilha mostra o efeito.
Faltou explicar a causa.
Custos não caíram na mesma velocidade
Há ainda outro aspecto interessante.
Enquanto as receitas oscilaram fortemente, as despesas permaneceram em patamar muito mais estável.
Os custos saíram de R$ 3,61 milhões em janeiro e chegaram a R$ 4,67 milhões em junho.
A receita, por outro lado, variou entre R$ 2,70 milhões e R$ 5,27 milhões.
Isso sugere uma estrutura relevante de custos relativamente rígidos: mesmo quando o faturamento cai, boa parte da despesa continua existindo.
Para uma empresa pública de obras e serviços, é exatamente aí que produtividade, ocupação de máquinas, pessoal, contratos e capacidade operacional deveriam entrar na prestação de contas.
Agora aparece um problema ainda maior
Duas telas apresentadas na audiência merecem ser colocadas lado a lado.
Na planilha denominada “Resultado Acumulado”, a receita líquida do primeiro semestre aparece como:
R$ 21.636.110,71.
Já na planilha “Receitas por setor 1º semestre 2026”, o total da receita líquida apresentado é:
R$ 20.640.398,23.
Diferença:
R$ 995.712,48.
Quase R$ 1 milhão.
Pode haver uma explicação contábil perfeitamente legítima para essa diferença. Pode ser critério de competência, receitas contabilizadas em outra classificação, ajustes ou outro tratamento contábil.
Mas a apresentação, pelo que foi exibido, precisa reconciliar esses números.
Quando duas planilhas referentes ao mesmo primeiro semestre apresentam valores diferentes para algo denominado “receita líquida”, não cabe ao cidadão adivinhar a origem da diferença.
Cabe à EMDUR explicar.
De onde vem o dinheiro
A segunda tabela também revela a forte concentração da receita da EMDUR em poucas atividades.
Somente a pavimentação rural gerou R$ 9,541 milhões.
Pavimentação e recuperação da malha viária urbana responderam por outros R$ 4,691 milhões.
Somadas, as duas atividades representam aproximadamente R$ 14,23 milhões.
Ou seja, perto de 69% dos R$ 20,64 milhões de receita líquida apresentados naquela tabela estão fortemente relacionados à pavimentação.
Depois aparecem pintura da malha viária, com R$ 2,670 milhões; aterro sanitário, R$ 1,385 milhão; galerias, R$ 1,225 milhão; cemitérios, R$ 987,8 mil; pinturas diversas, R$ 609,6 mil; paisagismo, R$ 537,2 mil; rodoviária, R$ 378,4 mil; e construção civil, apenas R$ 122,8 mil.
E aí surge outro ponto político interessante.
A empresa acaba de ampliar oficialmente justamente sua capacidade de atuar em várias dessas áreas.
A aposta parece clara: diversificar e ampliar serviços.
Mas ampliar atividade sem demonstrar previamente capacidade financeira e operacional pode ser apenas aumentar o tamanho da responsabilidade.
Cadê o balanço?
Aqui está, talvez, a principal fragilidade da audiência.
Uma prestação de contas de uma empresa não deveria se limitar a demonstrativos simplificados de receita, despesa e resultado mensal.
Para compreender efetivamente a situação econômico-financeira da EMDUR, seria importante apresentar, no mínimo, o Balanço Patrimonial e a Demonstração do Resultado do Exercício — ainda que em versão intermediária referente ao semestre.
Sem o balanço, não se conhece adequadamente o tamanho dos ativos, disponibilidades, contas a receber, dívidas, fornecedores, obrigações trabalhistas, tributárias e outros passivos.
Sem essas informações, sabemos que a empresa perdeu R$ 3,6 milhões no período.
Mas não sabemos com precisão o quanto ela tem de capacidade financeira para suportar essa perda.
Liquidez: a informação que ficou faltando
Também não foram apresentados, nas telas mostradas, índices que permitam avaliar a liquidez da empresa.
Liquidez corrente, liquidez imediata e, conforme a estrutura das demonstrações, outros indicadores ajudariam a responder uma pergunta simples:
a EMDUR consegue honrar suas obrigações de curto prazo com os recursos que possui?
É muito diferente uma empresa apresentar prejuízo de R$ 3,6 milhões possuindo caixa e recebíveis suficientes para cumprir seus compromissos, de apresentar a mesma perda com fornecedores e obrigações pressionando o caixa.
A planilha de resultado, sozinha, não responde isso.
Provisionamento também importa
Há outro ponto que merece esclarecimento.
Quais provisões foram constituídas no período?
Férias, 13º salário, encargos, contingências judiciais, obrigações trabalhistas, contratos e outros compromissos precisam ser reconhecidos conforme os critérios contábeis aplicáveis.
Isso é especialmente relevante porque a EMDUR terminou quatro dos seis meses no vermelho.
Se existem compromissos futuros relevantes que não aparecem nas planilhas simplificadas apresentadas ao público, a fotografia financeira pode ser ainda diferente.
Não significa dizer que eles não estejam contabilizados.
Significa que não foram demonstrados de forma suficientemente clara naquela apresentação.
E 2025?
Outra ausência dificulta qualquer avaliação séria: o comparativo.
Quanto a EMDUR faturou entre janeiro e junho de 2025?
Quanto gastou?
Qual foi o resultado?
A receita de pavimentação cresceu ou caiu?
A folha aumentou quanto?
Os custos operacionais avançaram acima da receita?
Sem o mesmo período do ano anterior, temos números, mas praticamente nenhuma referência histórica.
R$ 3,6 milhões de prejuízo é ruim.
Mas é pior ou melhor que 2025?
A audiência deveria permitir essa comparação.
Cadê o parecer do Conselho Fiscal?
E há uma pergunta ainda mais básica.
Onde está o parecer do Conselho Fiscal da EMDUR?
Na Resolução nº 001/2026, publicada agora, existe expressamente a aprovação do Conselho de Administração para a ampliação das atividades econômicas.
Portanto, os órgãos internos existem e participam das decisões da empresa.
Em uma prestação de contas, seria natural que o Legislativo e a sociedade também conhecessem as manifestações formais dos responsáveis pela fiscalização das contas.
O Conselho Fiscal aprovou os números?
Fez ressalvas?
Pediu ajustes?
Apontou riscos?
Nenhuma dessas respostas apareceu nas telas que foram apresentadas.
E as assinaturas?
Também seria importante que balanço, DRE e demais demonstrações contábeis fossem disponibilizadas formalmente, com a identificação e responsabilidade técnica dos profissionais responsáveis.
Planilha de PowerPoint ajuda a explicar.
Não substitui demonstração contábil.
Especialmente quando estamos falando de uma empresa pertencente ao Município.
Observatório não apontou
Outro detalhe chamou atenção de quem acompanhou a audiência pela internet.
Mesmo diante de um semestre com prejuízo superior a R$ 3,6 milhões, forte oscilação de receitas e uma apresentação sem balanço patrimonial visível, DRE completa, índices de liquidez ou comparação com o exercício anterior, não houve, durante a audiência acompanhada, apontamentos públicos relevantes por parte do Observatório Social.
Talvez os esclarecimentos tenham sido obtidos por outros meios.
Mas, diante dos números exibidos, perguntas não faltavam.
Cresce a EMDUR, cresce a obrigação de explicar
A publicação desta semana deixa uma coisa muito clara: a EMDUR poderá atuar em mais áreas.
Construção, instalações, resíduos, aterro, cemitérios, rodoviária e paisagismo ganham enquadramento econômico específico.
Isso pode representar uma oportunidade de ampliar receita e aproveitar melhor estrutura, máquinas e pessoal.
Mas também amplia riscos, obrigações e necessidade de capital.
Por isso, antes de perguntar apenas “o que mais a EMDUR poderá fazer?”, talvez seja necessário responder:
quanto a EMDUR efetivamente tem?
Quanto deve?
Quanto tem a receber?
Qual sua liquidez?
Quanto de seus custos é fixo?
Qual é o nível de utilização de pessoal e equipamentos?
Quais atividades dão lucro e quais dão prejuízo?
E por que duas tabelas do mesmo semestre apresentam uma diferença de quase R$ 1 milhão na receita líquida?
Prestação de contas precisa prestar contas
Este talvez seja o resumo.
Mostrar meia dúzia de planilhas não torna automaticamente uma apresentação uma prestação de contas completa.
Os números apresentados são importantes, mas provocam mais perguntas do que respostas.
E quando uma empresa pública termina um semestre com R$ 3,617 milhões negativos e, ao mesmo tempo, amplia significativamente seu campo de atuação, transparência financeira deixa de ser formalidade.
Passa a ser obrigação.
A EMDUR está aumentando o cardápio.
Agora precisa mostrar, com balanço, DRE, pareceres, indicadores, comparativos e números conciliados, se também tem estrutura financeira para pagar a conta.





