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A Teologia da Propina e o Milagre da Multiplicação dos Votos

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Era uma vez, em uma progressista e próspera província — cujo nome omitiremos para poupar os geógrafos de plantão de meras coincidências —, uma história de profunda devoção ao bem comum.
Diz a lenda (e os autos do processo) que dois diletos representantes do povo, imbuídos do mais puro espírito público, decidiram realizar uma auditoria privada. O cenário não poderia ser mais republicano: portas trancadas, penumbra estratégica e o confisco preventivo do celular do empresário convidado. O motivo do sequestro do aparelho? Uma súbita crise de paranoia patriótica. O parlamentar, temendo que os seus próprios passos estivessem sob a mira da Polícia Federal, confiscou o telefone alheio para “garantir a segurança” do encontro.
O celular foi devidamente exilado em uma gaveta, longe dos olhos, mas — ironia das ironias — não longe dos ouvidos. O microfone, insensível ao pânico dos edis, continuou rodando. E foi ali, do fundo escuro da gaveta, que a engenhoca tecnológica testemunhou a revelação da Nova Teologia da Coisa Pública.
Para que um projeto de lei fosse aprovado, explicou-se na penumbra, não era necessário debate técnico, audiência ou relatório. Era preciso praticar a caridade. Uma caridade estipulada no módico valor de 300 mil moedas.
“Veja bem”, explicou um dos iluminados parlamentares, com a voz mansa de quem prega no deserto, “esse dinheiro não é para nós. É para a subsistência da própria democracia. Afinal, a campanha eleitoral se aproxima e, como bem sabemos, todo mundo está com fome de campanha.”
O argumento era de uma poesia ímpar: transformar o suborno em um ato humanitário de combate à fome eleitoral, levando o resto do parlamento “de arrasto” com esse dinheirinho. O empresário, contudo, desprovido de tamanha sensibilidade poética — e munido de um áudio cristalino gravado diretamente do fundo da gaveta —, preferiu o Judiciário. E o caldo entornou.
O Poder Judiciário, que costuma ser insensível a metáforas e medos da Polícia Federal, agiu rápido. Afastou os paladinos de suas funções — decisão que o Tribunal de Justiça confirmou em grau de agravo, sem encontrar nenhuma caridade na exigência das 300 mil moedas. As contradições nos depoimentos dos acusados foram tão contundentes que até as estátuas da praça central já preveem o teor da futura sentença criminal. No mundo das provas reais, a condenação é uma linha reta.
Mas ah, o julgamento político… Esse é uma obra de arte da coreografia parlamentar.
No plenário da Casa do Povo, onde o destino político de Dadá e Buzu deveria ser selado, as regras da lógica formal deixam de existir. Para cassar, são necessários dois terços dos 19 votos. Uma conta matemática simples, mas que esbarra na complexa engenharia dos interesses paroquiais.
Diante do microfone, os defensores da absolvição operam verdadeiros milagres hermenêuticos para salvar os colegas de bancada:
• “O processo foi mal feito, há vício de forma…”
• “As provas são frágeis, o celular na gaveta violou a intimidade do suborno…”
• “Ninguém nunca provou que Dadá e Buzu agiram por maldade, era tudo em nome da incompreendida fome de campanha!”
Escondidos atrás de filigranas jurídicas, recursos protelatórios e vírgulas fora do lugar, parlamentares preparam-se para votar pela absolvição. Não por falta de convicção — eles sabem perfeitamente, tim-tim por tim-tim, o que o telefone gravou. Votam pelo apoio ao crime por puro cálculo de sobrevivência mútua. Na lógica corporativista, absolver o colega hoje é garantir o próprio salvo-conduto de amanhã. É o medo pânico de que, se a régua da moralidade subir demais na cidade, falte teto para quase todos os inquilinos do poder.
O tempo passará, como sempre passa. A cortina de fumaça das justificativas políticas vai se dissipar diante da inevitável sentença penal. E é aí que a ironia do destino cobrará seu preço mais alto.
Anos mais tarde, esses mesmos parlamentares, hoje orgulhosos de sua engenharia política, serão surpreendidos por seus netos na sala de casa. Os jovens, estudando a história local nos arquivos, perguntarão como uma eleição que prometia ser o marco da transformação da cidade tornou-se apenas mais um capítulo do coro que desestrutura a nação brasileira.
Eles procurarão nos olhos dos avôs a justificativa para terem endossado a “caridade dos 300 mil”. Descobrirão, em silêncio, que o voto que deveria defender o povo serviu apenas para alimentar a eterna fome de poder. Qualquer semelhança com a realidade, repita-se, será mera e fantástica especulação.

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Edição nº 2819 – 06/04/2026

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