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Toledo paga, a região usa

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Tem coisa que não fecha. Ou melhor: fecha… mas só para quem está do lado que recebe.

Na semana passada, apontei aqui um dado que deveria ter virado pauta diária na Câmara e no Executivo (fez): Toledo repassa cerca de R$ 1,7 milhão por mês ao Hospital Regional de Toledo (HRT), gerido pelo Instituto IDEAS, mas o uso do hospital não acompanha esse esforço financeiro.

De acordo com números do Ministério da Saúde (SIH/SUS), entre janeiro e novembro de 2025 o HRT registrou 4.943 internações. Desse total, apenas 45,46% foram de moradores de Toledo.

Sim: menos da metade.

O restante — 54,54% — corresponde a pacientes de outros municípios, principalmente da 20ª Regional de Saúde, além de internações oriundas de outras regionais. Traduzindo o óbvio: Toledo banca, e a região usa.

Ranking: as 10 cidades que mais utilizam o HRT

Os dados oficiais revelam que 10 municípios concentram 81,19% de todas as internações do HRT no período. Toledo lidera, mas é seguida por grandes demandantes regionais.

Top 10 municípios atendidos no HRT (jan–nov/2025):

  1. Toledo – 2.247 AIHs (45,46%)
  2. Marechal Cândido Rondon – 459 (9,29%)
  3. Santa Helena – 220 (4,45%)
  4. Cascavel – 202 (4,09%)
  5. Palotina – 192 (3,88%)
  6. Guaíra – 184 (3,72%)
  7. Terra Roxa – 163 (3,30%)
  8. Assis Chateaubriand – 142 (2,87%)
  9. Ouro Verde do Oeste – 103 (2,08%)
  10. Pato Bragado – 101 (2,04%)

Ou seja: Toledo não está financiando apenas Toledo.

Se a lógica for proporcional, isso representa algo em torno de R$ 927 mil por mês do dinheiro do contribuinte toledano financiando atendimentos fora do município — sem contrapartida justa, clara e proporcional. Em um ano, isso encosta em R$ 11 milhões.

E aí vem a pergunta que deveria ecoar como sirene dentro da Câmara Municipal, no MP e no Executivo: quantos municípios Toledo está bancando com esse contrato?

A conta explode aqui — e o desgaste também

Enquanto o hospital atende majoritariamente demandas externas, Toledo enfrenta fila, superlotação, demora por leitos, estresse na UPA e pressão na rede municipal. E o mais cínico desse arranjo é que a conta política cai no colo de quem? Prefeitura, secretária, vereadores. O instituto picareta? Continua recebendo.

Toledo já investe mais de 30% em saúde pública local — muito acima do mínimo constitucional de 15%. Ainda assim, transfere valores milionários mensais para um hospital que: não é municipal, não atende majoritariamente Toledo, é administrado por OS com histórico de questionamentos e apresenta sinais preocupantes no atendimento assistencial. Isso não é “parceria regional”. Isso é Toledo sendo transformada em caixa eletrônico da região.

O alerta é nacional — e Toledo finge que não vê

Outro ponto gravíssimo: o problema não é só local. Em maio de 2025, CGU e Polícia Federal deflagraram operação (TEMPLO VENDIDO) para apurar suspeitas em contratos de saúde estimados em R$ 196 milhões, em Santa Catarina, envolvendo indícios como subcontratações ilegais, superfaturamento e vantagens indevidas. Relatos revelam suspeitas de erros médicos e desvio de verbas no Hospital Materno-Infantil de Criciúma sob a responsabilidade do IDEAS.  Polícia Federal e tribunais de contas investigam o IDEAS por possível desvio de dinheiro público e contratação cruzada de empresas ligadas à própria direção — um modelo que especialistas já apelidaram de “pirâmide hospitalar”. O instituto nega irregularidades e não há condenação até o momento — mas o alerta está dado, e é nacional.

A partir daí, ignorar deixa de ser desatenção. Ignorar vira escolha política.

E aqui em Toledo, mesmo com denúncias locais, estaduais e nacionais, e até reuniões com participação do Ministério Público, não há sinais concretos de ruptura nem de reação proporcional ao risco.

O que era para ser um debate sério virou rotina.
E a rotina custa milhões.

Déficit, falta do básico e o risco assistencial

Nos bastidores, o rombo do HRT já teria ultrapassado R$ 22 milhões. E déficit em hospital não é estatística fria: déficit vira ausência.

O que chega da ponta é assustador: falta de profissionais em setores, dificuldade de manter equipes, problemas operacionais, carência de equipamentos e até falta de insumos básicos, como gaze.

Quando a gestão falha, a conta não cai no colo de quem assinou o contrato.
Cai no colo do paciente. E, muitas vezes, cai em forma de tragédia.

Mortalidade na urgência: os números incomodam. E não é só dinheiro.  Os indicadores também preocupam.

Em atendimentos de urgência do SUS, a taxa de mortalidade do HRT aparece superior ao comparativo consolidado apresentado:

  • HRT: 5,59
  • Hospital Municipal (Quinto Abrão Delazari): 3,63

Esse tipo de dado, por si só, exige: auditoria técnica, transparência pública, avaliação de protocolos, correção de fluxo e escala e responsabilização, se comprovada negligência. Saúde não é número de planilha. É vida.

Araucária rescinde. Assis “apaga”. E Toledo normaliza.

Enquanto Toledo permanece imóvel, Araucária reagiu: rescindiu unilateralmente contrato com o Instituto IDEAS por inexecução contratual, glosas, multas, descumprimento de metas e risco assistencial, formalizando decisão em dezembro de 2025.

Ou seja: há caminhos administrativos e legais para agir.

Já em Assis Chateaubriand, há relatos do fenômeno do “IDEAS invisível”: não aparece formalmente em contratos, mas surgiria na prática, em bastidores e movimentações de gestão. Isso precisa de apuração séria:
quem decide? quem manda? quem responde?

E Toledo? Toledo normaliza.

O caos vira rotina. O rombo vira “normal”. A falha vira “técnica”. E o contribuinte vira refém.

O alerta aos vereadores: fiscaliza ou compactua

Foto: Michelly Domiciano – Câmara de Toledo

A Câmara Municipal precisa parar de discurso genérico e agir como deve agir: como poder fiscalizador do povo.

Cabe requerer com urgência: contrato e aditivos integrais, metas pactuadas x metas entregues, glosas, multas e notificações, auditorias e apontamentos técnicos, relatórios de RH e escalas por setor, comprovação de serviço por pagamento

Porque se vereador não fiscaliza contrato milionário na saúde, fiscaliza o quê? Uma pergunta: Existe comissão de saúde na    Câmara?

E, sim, é impossível não registrar: em Toledo, houve vereadora que preferiu moção de aplauso a quem participou da gestão dessa lambança, ao invés de exercer fiscalização. Detalhe: essa mesma gestora precisou assinar ciência do cancelamento do contrato em Araucária.

Que Toledo aprenda com Araucária — ou pagará ainda mais caro.

Vou sugerir aos edis, essas perguntas que não podem ser engavetadas

  1. Qual o déficit atualizado do HRT?
  2. Quantas notificações contratuais já foram emitidas?
  3. Quantas multas e quantas glosas existem?
  4. Quais setores operam com equipe incompleta?
  5. Existe auditoria externa independente em andamento?
  6. Quem autorizou pagamentos e quais entregas comprovam cada valor?
  7. Por que Toledo sustenta o contrato mesmo diante do cenário nacional?

Concluo afirmando que: Não se trata de torcer contra hospital.
Se trata de defender a cidade.

Toledo já faz mais do que a lei exige. Mas está sendo empurrada para um papel injusto: financiar regionalmente um sistema que não retribui na mesma medida, com gestão contestada, déficit crescente e sinais preocupantes. Se Araucária rescindiu, é porque não dá mais.

E se Toledo continuar fingindo que não vê, aí não será só omissão.
Será escolha. Toledo não pode ser o caixa eletrônico da região.

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Edição nº2808 – 13/02/2026

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