Especialistas debateram a contribuição do programa na recuperação de pastagens. Em oito anos, área equivalente a do Reino Unido foi recuperada

Os resultados do Plano ABC mostram que a adoção de práticas de agricultura de baixa emissão de carbono valem a pena. O desempenho dessa política pública especificamente na recuperação de pastagens degradadas foi tema de live promovida na noite dessa terça-feira, 17, pela Frente Parlamentar da Agropecuária em parceria com o Canal Rural. A diretora de Produção Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura, Mariane Crespolini, destacou que a pecuária nacional vem se transformando ao longo dos anos em linha com a sustentabilidade.

“A nossa produtividade dobrou em relação ao que era em 1997 e isso fez com que o fator de emissão de metano por animal reduzisse”, pontuou. Segundo a diretora do Mapa, a recuperação de pastagens teve papel importante nesse processo junto ao melhoramento genético dos animais, suplementação alimentar estratégica entre outras práticas.

Sobre o Plano ABC, Mariane Crespolini citou dois estudos recentes que comprovam a importância dessa política. Um deles é uma publicação da Embrapa que apontou a adoção de práticas de baixa emissão de carbono em 40 milhões de hectares no período de 2010 a 2018. Outro estudo produzido pelo Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (Lapig/UFG) mostrou que houve a recuperação de pastagens de 26,8 milhões de hectares entre 2010-2018. O número supera em mais de 10 milhões de hectares a meta do Plano ABC.

“Só em pastagens degradadas o Brasil recuperou uma área equivalente à do Reino Unido”, disse ao mencionar que a recuperação de pastagens é umas seis tecnologias previstas no Plano ABC. “É uma das maiores políticas do mundo de agropecuária sustentável”, acrescentou Mariane Crespolini.

A diretora executiva da Associação dos Criadores do Mato Grosso, Daniella Bueno, destacou que no estado os pecuaristas estão produzindo mais usando uma área menor. “Isso graças a essa recuperação de pastagens. Programas como o ABC vieram suprir essa necessidade urgente que o estado tem de melhorar a sua produtividade sem ter a necessidade de abrir novas áreas”, afirmou. De acordo com a dirigente da Acrimat, em 2009, o Mato Grosso tinha um rebanho de 26 milhões de cabeças de gado em 25 milhões de hectares. Dez anos depois, esse rebanho subiu para 30 milhões de cabeças em uma área de 24 milhões de hectares.

Segundo Daniella Bueno, o estudo do Lapig/UFG comprova o que a Acrimat tem constatado com os criadores mato-grossenses. “O produtor realmente tem investido e programas como o ABC vieram dar um plus ao que gente vem fazendo ao longo dos anos”.

Já Francisco Castro, presidente em exercício da Federação de Agricultura do Mato Grosso (Famato), atribui o interesse o produtor pela ampliação de práticas sustentáveis a uma exigência de mercado. “Essa agropecuária de baixo carbono é uma necessidade mundial. O produtor percebe a necessidade de se apresentar melhor ambientalmente para o mundo que está cada vez mais exigente”, enfatizou. Nesse cenário, Castro apontou o Programa ABC como ferramenta importante com a tomada de crédito junto com investimento feito pelo próprio produtor.

“O pecuarista está cada vez mais profissional. O que não for profissional não vai permanecer nesse mercado. Mas, o que permanecer vai usar todas as ferramentas e tecnologias possíveis”, completou o presidente em exercício da Famato. Mato Grosso foi estado que mais buscou financiamento do Programa ABC no ano safra atual, com R$ 163 milhões acessados de julho a setembro deste ano. Ao todo, a liberação de crédito atingiu R$ 1,068 bilhão no período, 36,8% a mais que o intervalo de julho a setembro de 2019.

Próximos passos

Dez anos depois de ser implantado, o Plano ABC passa por uma revisão, informou a diretora do Ministério da Agricultura. A política, além de linha de crédito, inclui transferência de tecnologia, contratação de assistência técnica entre outras ações. Mariane Crespolini esclareceu que o governo agora está avaliando os resultados para aperfeiçoar o plano.

“A gente está olhando para cada estado, para cada bioma brasileiro. O Brasil é um país continental, então, falar de Plano ABC para Caatinga é complemente diferente do Plano ABC para o Cerrado”, explicou. Conforme Mariane, o ministério está definindo as metas para os próximos 10 anos bem como a possibilidade de inclusão de novas tecnologias. A previsão do governo é apresentar o plano estratégico ainda este ano e o plano operacional no início de 2021.

Nessa revisão, Daniella Bueno mencionou que investir mais em assistência técnica é um ponto crítico bem como reduzir alguns entraves burocráticos nos bancos que operam a linha de crédito. Ela reconheceu que essas dificuldades já foram maiores. “O Ministério tomou a frente junto as instituições financeiras”, elogiou.

Francisco Castro contou que para vencer as dificuldades de acesso ao crédito, a Famato montou uma força-tarefa com a Embrapa Agrosilvipastoril e a Superintendência do Banco do Brasil local quando projetistas auxiliaram o produtor rural. Ele ainda recomendou que o agropecuarista busque apoio junto ao sindicato rural ligado ao Sistema Famato/CNA/Senar para saber como participar do Plano ABC. “O agropecuarista brasileiro é determinado. Ele faz a melhor agropecuária do mundo se tiver condições para tal”, assegurou Castro.

“O Plano ABC demonstra que é possível o que o Brasil já está fazendo: garantir segurança alimentar com conservação ambiental gerando mais empregos e mais renda para o produtor”, ressaltou a diretora do Mapa. Ela ainda mencionou as finanças verdes com investimentos estrangeiros como um mecanismo em expansão de financiar a agricultura sustentável no Brasil por meio do mercado de carbono.

Fonte: Frente Parlamentar da Agricultura