Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Fonte de dados meteorológicos: Wettervorschau 30 tage
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

O mistério do amor que salva

h

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Dom João Carlos Seneme, Bispo da Diocese de Toledo. Foto: Divulgação

A Festa da Exaltação da Santa Cruz nos convida a contemplar com profundidade um paradoxo: o sinal de morte se torna, pela fé, sinal de vida. Aquilo que o mundo associaria à derrota — a cruz — é, na lógica de Deus, o trono da misericórdia, o ápice do amor redentor, a porta aberta para a salvação eterna.

A Oração da Coleta da liturgia de hoje expressa com clareza essa inversão divina: Concedei que, tendo conhecido na terra este mistério, mereçamos alcançar no céu o prêmio da redenção.  Conhecer o mistério da cruz é, antes de tudo, se deixar tocar por esse amor que se esvazia e se entrega, que não exige nada, mas se doa completamente. É aceitar que Deus, em sua compaixão infinita, transformou o sofrimento humano em caminho de esperança.

A cruz não é um ícone de violência glorificada, nem um estandarte de dominação, como muitas vezes foi deturpada ao longo da história. Ela é, sim, o sinal do amor que se humilha, do servo que se faz último para salvar a todos. Em uma época em que o nome de Deus é tantas vezes invocado para justificar ódios, exclusões e guerras, a cruz nos recorda que o verdadeiro Deus é aquele que se deixou crucificar, não para condenar, mas para salvar.

A narrativa do Êxodo nos ajuda a entender essa travessia: o povo caminha pelo deserto, carrega as feridas da escravidão, experimenta fome, sede, desânimo — e se rebela. Eles olham para o passado com saudade e para o futuro com medo. É nesse contexto que Deus, por meio da serpente de bronze erguida por Moisés, oferece cura para os que olham com fé. Jesus retoma essa imagem ao dizer a Nicodemos que o Filho do Homem também será levantado, “para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3,15).

O que antes era símbolo de castigo se torna instrumento de salvação. Mas há um passo a mais: não basta contemplar a cruz — é preciso crer naquele que nela foi erguido, e mais ainda, se deixar transformar por esse amor. Crer não é apenas aceitar uma doutrina, mas é confiar na lógica divina, é permitir que a cruz nos converta à compaixão.

São Paulo resume isso em sua carta aos Filipenses: Cristo, embora fosse Deus, se esvaziou, assumiu a forma de servo, tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,6-8), e por isso, Deus o exaltou. Essa é a verdadeira exaltação: não a que se busca por mérito ou orgulho, mas aquela que nasce da humildade e do dom de si.

Hoje, ao exaltarmos a Santa Cruz, somos chamados não a levantar um símbolo triunfalista, mas a fazer da nossa vida uma resposta àquele amor que nela se entregou. O mundo já viu cruzes demais erigidas para ameaçar ou dividir. O que falta é ver mais vidas moldadas pela cruz do amor: pessoas dispostas a servir, a perdoar, a oferecer consolo, a dar sem esperar retorno.

A exaltação da cruz se torna, então, um compromisso: viver de modo que a nossa existência aponte para Cristo, não com palavras impositivas ou gestos grandiosos, mas com uma caridade concreta, silenciosa, natural — fruto daquele amor que recebemos primeiro.

Porque a cruz de Cristo é, por fim, o altar onde Deus diz ao mundo: Eu te amei até o fim. E se realmente cremos nisso, somos chamados a amar também assim.

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo. Amém.

Dom João Carlos Seneme, css

Bispo de Toledo

Veja também

Publicações Legais

Edição nº2810 – 24/02/2026

Cotações em tempo real