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O amor como chave de toda a Sagrada Escritura

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Foto: assessoria

No monte Sinai, o povo de Israel selou sua aliança com Deus e descobriu algo extraordinário: entre Deus e a humanidade pode haver diálogo e colaboração em vista de um projeto comum de amor. A iniciativa é sempre de Deus, que entra no caminho da humanidade para encontrá-la. A nós cabe não deixar esse diálogo se apagar. Israel respondeu acolhendo, como vontade de Deus, o Decálogo, isto é, os dez mandamentos dados a Moisés, e as leis do Código da Aliança, lembradas na primeira leitura. Dessa base nasceu uma espécie de carta constitucional para a vida do povo. Na Torá, os primeiros livros da Bíblia, os judeus contavam 613 preceitos: 365 proibições e 248 mandamentos positivos. Eram tantos que os estudiosos discutiam qual deles era o mais importante.

É nesse contexto que se lê o Evangelho de hoje (Mt 22,34-40). Estamos em Jerusalém, às vésperas da Paixão, e os fariseus querem desmoralizar Jesus diante do povo com uma pergunta armadilha. A cena, porém, nos ajuda a refletir sobre dois modos de viver nossa relação com Deus e com o próximo.

Jesus não foge da pergunta. Responde com a própria Escritura e une dois mandamentos que os judeus já conheciam e praticavam. O primeiro é amar a Deus (Dt 6,5), que resume a vocação de Israel e a razão de sua existência. Em Cristo, essa vocação passa a ser nossa: somos chamados a amar a Deus como o Filho o amou. O segundo é amar o próximo como a si mesmo (Lv 19,18). Os dois mandamentos não são idênticos, mas são inseparáveis: o amor a Deus é verificado no amor ao irmão, e o amor ao irmão encontra em Deus sua fonte e sua medida. Quem tenta separá-los acaba esvaziando ambos, pois a devoção sem caridade se torna formalismo, e a caridade sem Deus perde seu fundamento. Unidos, expressam a vontade de Deus e dão à vida cristã sua verdade e sua consistência. No amor, o ser humano reencontra sua unidade interior: coração e alma, pensamento e ação passam a caminhar na mesma direção.

Jesus não simplifica a Lei, ele acentua que o amor é a chave que abre e resume a Lei e os Profetas. No capítulo 19 do Levítico, por exemplo, amar o próximo significa não enganar, não oprimir, não roubar, não difamar, não odiar. Para Jesus, o amor a Deus e ao próximo sustenta toda a Bíblia e todo o agir do cristão. Assim, o amor deixa de ser obrigação ou dever e passa a ser uma escolha que nasce no coração e envolve a pessoa inteira.

Deus ama o ser humano como ele é, com suas luzes e suas sombras. Ele “faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5,45). Quem divide o mundo em bons e maus, ricos e pobres, piedosos e ímpios somos nós; Deus não. Ele nos lembra sempre que somos suas criaturas e que ainda estamos a caminho, precisando de conversão todos os dias. Por isso, nosso amor a Deus não pode ficar só na oração: é um chamado a imitar o amor de Deus, que se aproxima de quem é pecador, está perdido, é pobre ou até age com maldade, sem desistir de ninguém.

Que o Senhor nos ajude a viver aquilo que rezamos, para que fé e vida se completem e nossas comunidades e o mundo sejam melhores, sinal de que somos criaturas de Deus.

Dom João Carlos Seneme, css

Bispo Diocesano de Toledo

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