Foto: Reprodução/vídeo/Aerosul/interessada em operar em Toledo

Na edição de ontem, esse Jornal publicou matéria com exclusividade, através da colaboração de nosso parceiro no setor aeroportuário, Júlio Blumenau, sobre a vinda de uma nova empresa de transporte aéreo para Toledo, que se chama Aerosul. Da mesma forma, ele fez uma análise dos números e das concorrências e chegou à conclusão que Toledo poderá ficar sem a volta dos voos da Azul.

Ele começou falando da grande complexidade dos custos operacionais das empresas de aviação e a ampliação do aeroporto de Cascavel são fatores que podem afetar a volta dos voos diários da Azul para Toledo, como firmados antes da pandemia.

ICMS sobre o querosene

Em sua primeira abordagem, ele explica sobre a desmotivação da Azul, quando a mesma tinha interesse em voar para mais destinos dentro do estado. A empresa pretendia operar em Guarapuava, Pato Branco, Ponta Grossa e Toledo, e tinha planos de também fazer Umuarama. A razão disso tem a ver com o plano do então governador Beto Richa, que aumentou a alíquota do ICMS sobre o querosene de aviação em mais de 100%, elevando o valor final das operações em 18%, lembrando que o combustível representa cerca de 1/3 dos custos das companhias aéreas. Isso foi um baque no setor, que resultou na diminuição de voos dentro do estado, disse Júlio.

Incentivo gradativo de descontos

Em seguida, o então governo Beto Richa sancionou um programa de incentivos, no qual concedia dois pontos percentuais de desconto para cada novo destino dentro do Paraná (“desconfio que ele queria ficar conhecido como um desbravador dos céus sem investir em aeroportos”, brincou Júlio). Então, com um voo semanal para Ponta Grossa, primeira cidade beneficiada, a companhia passou a ter desconto em todos os aeroportos do estado. Veja que a nova operação não era lucrativa, já que mantinha uma equipe em solo, deficitária. Entretanto, o prejuízo compensava em muito nos destinos densos, especialmente Curitiba, onde mantinha mais de sessenta operações diárias, a maioria com aeronaves grandes, e Foz do Iguaçu. A partir dali passou a operar em Toledo, Pato Branco e por fim Guarapuava. Antes da pandemia já tratava de atender Umuarama.

Com as cinco cidades reduziram o imposto de 18% para 8%. Com eventual sexta operação, chegariam ao piso de 7%. Os 11 pontos percentuais a menos, sobre o preço do querosene (em torno de R$ 3,50 em 2019), multiplicados pelas dezenas de milhões de litros consumidos todos os meses só no Paraná, representam uma economia milionária e interessante.

Monopólio e estratégias

Ocorre que apenas a Azul estava, e está, apta a receber tais benefícios, pois somente ela conta com aviões preparados para estruturas menores, ou seja, o ATR-72. A Gol e a Latam têm, respectivamente, Boeing 737 e Airbus A-319, como menores aeronaves de suas frotas, incompatíveis com os aeroportos em questão. Para não ficar atrás, a Gol contratou a Two Flex, empresa de táxi-aéreo que tem uma frota composta por monomotores Cessna Grand Caravan, a fim de voar em seu nome para 10 novos destinos ainda menores e com um custo ínfimo, no muito divulgado programa “Voe Paraná”. Desta forma, a Gol conseguiu também o desconto máximo, mas por pouco tempo, já que a Azul comprou a Two Flex, transformando-a na Azul Conecta, dando uma rasteira na concorrente.

Sugestão e incentivos

Veio a pandemia e as empresas cortaram todas as operações deficitárias. Então, diante de tais fatos e de mudanças rápidas que ocorrem no setor, há várias possibilidades. A primeira delas é a redução geral no ICMS, medida adotada por outros estados, como o Rio Grande do Sul, com os efeitos aparecendo. Isso faria com que a Azul se voltasse para os aeroportos maiores; a Azul poderia colocar seus agora Cessna Caravan da Two Flex em cidades pequenas e conseguir os descontos sem grandes gastos, deixando os ATR para rotas mais densas e consolidadas; finalmente, o estado do Paraná poderia manter a antiga política e exigir que a Azul retorne os voos para continuar com os incentivos. Com tais fatos, não é errado pensar que a nova empresa Aerosul, conforme matéria que a Gazeta de Toledo publicou nessa semana, com frota de uma aeronave pequena, tenha sido criada para vender seus serviços a uma maior.

Toledo poderá ficar de fora dos voos da Azul

Então no presente momento fica muito difícil saber sobre o retorno da Azul Linhas Aéreas a Toledo, que tem como fator prejudicial o Aeroporto de Cascavel como vizinho. Lá eles têm equipes e estrutura de apoio, onde já operavam diversos voos diários e agora podem utilizar aeronaves maiores, como os mais econômicos Embraer E2 e Airbus, ou seja, o custo fixo é dividido por mais passageiros. Então, sem o incentivo fiscal, não voará para cidades onde não garantirá o lucro, principalmente tão próximas como Cascavel e Toledo, onde concorre com ela mesma.

A saída para Toledo ter voos diários

Uma boa opção para Toledo é pleitear uma companhia que não faça Cascavel, criando uma saudável concorrência com os vizinhos. Mas existe apenas uma capaz de atender tal ligação: a VoePass (ex-Passaredo). Porém, eles têm relação comercial com a Gol, logo poderiam não bater de frente na ligação com São Paulo, restando Curitiba, destino atendido pela Azul até março. Com isso, a empresa de Ribeirão Preto, que já voa para Ponta Grossa e Foz, poderia também ter mais descontos no ICMS.

Um novo ano de grande desafio para nossas autoridades representativas

Cascavel, mesmo com suas rajadas laterais, e graças a união de suas lideranças políticas, que pensam e agem pela cidade, conseguiu arrumar mais de R$ 38 milhões (parte desse montante a fundo perdido) para transformar o terminal de passageiros e pátio de aeronaves. Nos investimentos estão incluídos dois pontos de fingers, equipamentos raros nos aeroportos do interior do país, com a tecnologia disponibilizada no Aeroporto de Cascavel.

Em Toledo, mesmo com maior estabilidade dos voos, as lideranças, através de seus empresários, políticos e entidades representativas, terão que friamente “degustar” essas informações e juntos buscar uma maneira viável para o retorno dos voos da Azul, ou dessa nova empresa, a Aerosul, que optou ter o município como sua base.