Tem coisa que beira o deboche. A vereadora Marli passou quatro anos à frente da Secretaria da Educação e deixou uma herança nada pedagógica: uma deficiência de mais de 500 professores na rede municipal. Em apenas um ano e meio, a atual gestão contratou profissionais e normalizou uma situação que vinha se arrastando.
Eis que agora, da tribuna, a ex-secretária aparece cobrando aquilo que ela própria não conseguiu entregar quando tinha a caneta na mão.
É aquela velha lógica: não fez quando podia, mas agora quer ensinar como fazer. E, pelo jeito, descobriu que a tribuna é um ótimo lugar para esquecer o passado.
CMEIs seguem a mesma matemática. Durante quatro anos no comando da Educação, não deixou a marca de novas unidades construídas. Agora, cobra obras e soluções como se tivesse acabado de chegar à vida pública.
Memória seletiva também deveria reprovar na avaliação.
O rosário das picuinhas
E para completar a cena, Marli resolveu subir à tribuna para ler uma verdadeira cartinha de reclamações. Não faltou assunto: até marmita entrou no rosário.
Nada contra cobrar qualidade, condições de trabalho e respeito aos servidores. Isso é obrigação de qualquer vereador. O problema é a incoerência de quem teve quatro anos para enfrentar boa parte dessas questões quando estava justamente no comando da Educação e agora parece descobrir, do plenário, que os problemas existem.
A tribuna não pode virar divã para ressentimentos políticos nem palanque para esquecer o próprio passado administrativo.
Se a crítica é legítima, que seja feita. Mas seria bom acrescentar à fala uma pequena dose de memória: o que foi feito quando a senhora tinha poder de decisão?
Porque cobrar depois que deixou a cadeira é fácil. Difícil é entregar quando se tem a responsabilidade.
Quando o diálogo era uma porta fechada
E tem um detalhe que a memória política não pode apagar: quando Marli estava secretária da Educação, a relação entre a administração municipal e a direção sindical estava longe de ser um mar de diálogo.
Segundo os episódios lembrados pela própria categoria, o sindicato colecionava pedidos de audiência sem conseguir ser recebido. Em uma dessas situações, a justificativa para a ausência do então chefe de gabinete teria sido de que ele estaria em compromisso em Cascavel. O problema é que uma transmissão ao vivo do próprio sindicato acabou registrando a presença dele na sede do Procon.
A versão não resistiu à câmera.
Na época, houve tentativa de explicação. Mas o episódio ficou marcado justamente pela falta de transparência no trato com a representação dos servidores.
Agora, o cenário é outro. A atual gestão recebe o sindicato, dialoga e, em menos de um ano e meio, atendeu grande parte das reivindicações apresentadas pela categoria.
Então não há muito mistério sobre fotografia.
É perfeitamente compreensível que uma direção sindical queira aparecer ao lado de quem abre a porta, recebe, negocia e concede conquistas. Estranho seria querer posar ao lado de quem, quando podia dialogar, preferia… não estar disponível.
Afinal, sindicato não é obrigado a ter saudade de porta fechada.
Pedro Varela: a memória que a tribuna não apaga
O vereador Pedro Varela resolveu colocar um pouco de memória na discussão que a vereadora Marli tentou transformar em rosário de cobranças.
E lembrou de um detalhe inconveniente: enquanto Marli era secretária da Educação e também passou pela Secretaria de Esportes, muita coisa que hoje ela cobra do prefeito Mário Costenaro ficou quatro anos esperando.
Varela citou a reforma da Escola Tancredo Neves, prometida durante todo o mandato anterior e que nunca saiu do papel. Lembrou também do campo sintético do Jardim Europa, para o qual recursos foram buscados, inclusive com articulação dos próprios vereadores, mas que também não virou realidade.
Agora, depois de apenas um ano e meio da atual administração, parece que a Prefeitura deveria ter resolvido tudo: CMEIs, escolas, salários, vales, reformas e ainda deixar a cidade cheirando a tinta fresca.
É muita pressa para quem teve quatro anos para fazer.
Como bem resumiu o vereador, se arruma a calha, reclamam que não deram o vale. Se aumenta o vale, reclamam da calha. Se faz o CMEI, aparece outra reclamação. E assim segue a fábrica de picuinhas.
O problema é que obra feita não combina muito com discurso de quem ficou quatro anos olhando para o calendário.
E a conta é simples: quem teve quatro anos para fazer e não fez precisa, no mínimo, ter um pouco de humildade antes de cobrar quem está tentando resolver em um ano e meio.
A memória também faz parte da Educação
O vereador até fez questão de elogiar a disposição da vereadora Marli em defender os servidores. Bonito. Educado. Quase um afago.
Mas depois veio o detalhe que provavelmente não estava na cartinha lida na tribuna: memória.
Segundo o parlamentar, está correto cobrar, fiscalizar e apontar o que ainda precisa ser feito. O problema começa quando parece que todos os problemas da cidade nasceram junto com a gestão Mário Costenaro.
E aí a vereadora talvez precise olhar um pouco pelo retrovisor.
Ela foi secretária da Educação. Conhecia a estrutura, conhecia as escolas, conhecia os CMEIs e sabia exatamente em que condições estava recebendo e deixando a pasta. Portanto, transformar dois anos de gestão atual em explicação para todos os problemas históricos da Educação é, no mínimo, uma conveniente amnésia política.
O vereador foi direto: já houve reformas, melhorias em espaços escolares, CMEIs concluídos e outros em construção, além de projetos programados e investimentos que estão saindo do papel.
E tem uma verdade inconveniente para quem gosta de discurso apocalíptico: nenhuma administração resolve tudo.
Se resolvesse, depois de quatro anos não haveria mais nada para o próximo prefeito fazer. A cidade estaria pronta, acabada, sem uma única demanda.
Mas não é assim que funciona.
O problema é quando a crítica deixa de ser fiscalização e vira a tentativa de pintar a cidade inteira como se estivesse em ruínas.
Aí fica fácil esquecer quem esteve quatro anos dentro da máquina pública, com poder de decisão, e saiu deixando problemas que agora cobra que sejam resolvidos em um ano e meio.
Criticar é direito de vereador.
Cobrar é obrigação.
Mas lembrar do próprio passado administrativo também deveria ser.







