Dinheiro do “corte da gravata”, ocorrido há 28 anos, deu início ao empreendimento que mantém até hoje próspero relacionamento com seus clientes

Nem todo empreendedor começou com altos investimentos. Muitos, inclusive no Brasil, começaram com bem pouco — se arriscaram, inovaram, perceberam boas oportunidades e fizeram acontecer. Hoje são conhecidos por milhões de brasileiros e mostram que apesar de tantas dificuldades, também é possível empreender com pouco dinheiro.  Temos exemplos de empreendedores brasileiros que começaram do zero e hoje têm negócios prósperos. É claro que cada um tem sua história e há muitos fatores diferentes na receita do sucesso, mas é sempre importante analisar a trajetória de quem chegou lá, e ver o que também podemos fazer no dia a dia.

Em Toledo, há um casal inspirador que deve ser incluso nas melhores listas de vencedores, empreendedores e acima de tudo, de que tem fé, começando com o dinheiro do corte da gravata de seu casamento.  No momento em que completa 28 anos de sua fundação, a Mercearia Dal Bosco revela uma história permeada por desafios característicos do empreendedorismo. Períodos de dificuldades se alternam com os pontos altos de uma trajetória de muito trabalho e sucesso.

A vida e a história do casal

Para compreendermos o ciclo iniciado há quase três décadas, fomos ouvir os protagonistas dessa história: Laudemir Dal Bosco e sua esposa, Enaide. O casal nos recebeu para uma conversa descontraída, que, recheada de curiosidades, revela o caminho percorrido desde os idos de 1992.

Laudemir, que está prestes a completar 53 anos, nasceu na localidade de Xaxim, em Toledo.

Enaide é natural de Quatro Pontes, que na época pertencia ao município de Marechal Cândido Rondon. Após se conhecerem em 1988 e de quatro anos de namoro, se casaram em setembro de 1992. Do relacionamento vieram dois filhos: Larissa, que hoje tem 24 anos, e Leonardo, que está com 22.

Mas antes da chegada dos filhos, o casal deu início ao empreendimento planejado ainda na fase do namoro, quando ele trabalhava na roça e ela, como bancária, trabalhava na agência do Bradesco. A ideia de montar uma mercearia transformou a vida dos dois, e a atividade econômica que idealizavam não era totalmente desconhecida por eles, já que o irmão de Laudemir possuía um mercado no Jardim Coopagro. Com uma bicicleta emprestada, o homem do campo que trabalhava na propriedade rural da família, cuidando da lavoura e tratando de vacas e suínos, veio para a cidade. Almejava se tornar comerciante e veio em busca de um lugar para montar o negócio que tocaria ao lado da companheira.

A escolha do local        

O local escolhido ficava em uma área que ainda não havia sido urbanizada, como hoje se encontra o Jardim Parizotto. Na época, aquela região da cidade, embora próxima de algumas casas, era tomada pelo cultivo. Havia plantações por ali, mas o terreno adquirido para o empreendimento, como lembra o casal, tinha outra característica: “era puro mato”. Tinha 21 árvores, mato, entulho e lixo, que era depositado na esquina onde foi erguida a Mercearia Dal Bosco.

Com muita labuta, o projeto foi se concretizando naquele lote, que tinha um pouco mais de 400 m² e fora adquirido por Cr$ 2.500 (dois mil e quinhentos cruzeiros). A aquisição do terreno não era o suficiente e um dos primeiros obstáculos encontrados foi para conseguir o capital necessário para começar o negócio. Sem condições financeiras para custear a empreitada, Laudemir contou com a ajuda do pai para construir o prédio de aproximadamente 100 m², que teria seu espaço dividido entre lar e comércio, ao passo que Enaide abria mão de seu carro para montar o mercado. Os dois, que ainda não haviam se casado quando adquiriram o terreno, estavam prestes a consumar o matrimônio, quando um infortúnio atrapalhou seus planos. O Opala Comodoro que seria vendido para alavancar a empresa, foi roubado. O veículo não possuía seguro e nunca foi recuperado.

Dinheiro do “corte da gravata” levou produtos às prateleiras

Com o casamento marcado, eles não desistiram do sonho e seguiram firmes com a intenção de empreender. As circunstâncias foram dribladas de maneira criativa e do casamento veio o recurso que necessitavam, ou melhor, da festa do casamento, que aconteceu na comunidade de Xaxim. Dali veio uma ajuda muito especial: o dinheiro arrecadado no tradicional “corte da gravata” do noivo e que geralmente é destinado à lua de mel do casal. Porém, neste casamento, o dinheiro teve outro destino: a compra de mantimentos. Foram arrecadados na moeda da época, Cr$ 333,00 (trezentos e trinta e três cruzeiros), valor usado para que dessem o pontapé inicial na Mercearia e Açougue Dal Bosco.

Na foto Enaide com a filha Larissa ao colo na frente das “gôndolas”

As primeiras gôndolas (existentes até hoje) do estabelecimento eram de madeira e foram adquiridas de um mercado que faliu. A compra inicial dos produtos que lá seriam revendidos foi feita com o CNPJ do irmão de Laudemir, que já tinha seu comércio há três anos. De Minas Gerais vieram as primeiras mercadorias, compradas do extinto Atacado Peixoto, como nos contou Enaide. Com o tempo, os produtos foram se diversificando e às latas de cera, de óleo e de outros mantimentos, se somaram produtos coloniais produzidos aqui mesmo em Toledo.

Em uma época em que não havia a oferta de carnes provenientes de grandes frigoríficos como hoje, e que a legislação não vedava a comercialização de carnes de animais abatidos fora destes estabelecimentos, era comum bovinos, suínos, aves e alguns de seus derivados, como embutidos, serem produzidos  e vendidos em mercearias e açougues. Como o comércio da família Dal Bosco foi planejado desde o início para ser mercearia e açougue, foi só questão de tempo para serem introduzidos no estabelecimento um freezer e uma serra-fita, utilizada para o corte de carnes. As partes destes alimentos que eventualmente não fossem todos vendidos dentro de um prazo tido como carne fresca, serviam para a produção de salames e linguiças. Os embutidos eram feitos na propriedade do pai de Laudemir, em Xaxim, para onde o casal ia aos finais de semana pedalando suas bicicletas.

Além dos sacrifícios feitos por marido e mulher, alguns dissabores se somaram à história de empreendedorismo dos dois, como a confiança demasiada em alguns fregueses. Com a intenção de aumentar o fluxo dos negócios, o casal Dal Bosco no início fez o que muitos comerciantes fazem: venderam fiado (e não receberam de alguns clientes). Devido a prática do fiado, amargaram prejuízos e precisaram serem socorridos por familiares que lhes emprestaram dinheiro.

Hiperinflação lhes proporcionou grandes lucros

Apesar dos aborrecimentos, bons momentos dessa trajetória também nos foram narrados, como a profusão desencadeada por momentos de turbulência na economia brasileira, onde a inflação chegava a mais de 1.100% ao ano. Não podemos nos esquecer que na época em que surge em Toledo a mercearia que se aproxima de três décadas de existência, o país passava por um período agitado na economia, com inflação descontrolada e atribuladas políticas conduzidas por diferentes governos.

Naquele tempo, se dormia com uma determinada cotação da moeda e se acordava com outro valor. A alta dos preços, que tinham variação de até 50% num curto espaço de tempo, permitiu bons ganhos aos comerciantes, pois os produtos eram comprados dos fornecedores (armazéns) em uma data, pelo valor do dia, e vendidos aos clientes, que adquiriam a prazo. Quando de suas liquidações, os valores das mercadorias eram do dia e geralmente os preços já tinha aumentado em relação a data da compra, muitas vezes em mais de 100%. “Foi a época em que mais ganhamos dinheiro”, contou o casal.

Apesar de algumas fases de bonanças, contratempos lhes foram impostos, como a dificuldade encontrada em conciliar trabalhos e horários, visto que no começo Enaide ainda mantinha seu emprego no banco. Ela e o esposo se revezavam na mercearia. Enquanto ela estava na agência bancária, ele trabalhava na venda. E quando ela assumia o posto na mercearia, ele ia pedalando a um dos principais pontos comerciais de Toledo, a Casa Trento, para buscar caixas de cebolas, batatas, tomates e repolhos, que eram transportados na bicicleta até a mercearia.

Depois de um ano, as coisas melhoraram um pouco. Foi quando os empresários compraram uma motocicleta. Com muita dedicação ao trabalho, em seguida veio mais uma conquista, um automóvel Del Rey.

Para prosperar, empreendedores precisam aprender (e trabalhar) muito ao longo de suas jornadas, que naturalmente são feitas de altos e baixos. Para progredir e alcançar bons resultados também foram necessários bastante dedicação e equilíbrio para lidar com adversidades e superar obstáculos, como fizeram Laudemir e Enaide. Foi assim que, aos poucos, o Del Rey deu lugar a um Monza I, trocado depois por um Monza II, que por sua vez foi substituído por uma caminhonete S10.

Essa escalada, representada pela alternância de veículos na garagem do casal, sintetiza os esforços e as recompensas da família Dal Bosco. Foram dez anos de trabalho puxado na mercearia, compreendidos entre o momento em que as bicicletas foram aposentadas e a conquista da primeira caminhonete.

Ao comemorar uma década de empreendedorismo, o casal também celebrou dez anos de casamento, que foi fortalecido enquanto se passavam fases de apertos, de aprendizagens e também de crescimento, na empresa e na vida conjugal. De lá pra cá, os anos seguintes continuaram a render bons frutos, afinal Enaide e se companheiro seguiram esforçando-se no trabalho e dedicando-se à família.

Essa rotina é exigente, já que se revezam ainda hoje entre o trabalho no comércio e a produção na propriedade rural, onde mantêm uma horta e criam suínos, aves e ovelhas. E ainda conseguem tempo para fazer entregas aos clientes, que por vezes necessitam de mercadorias a noite, como alguns estabelecimentos do ramo alimentício. Por outro lado, também há a percepção de que o trabalho que realizam é gratificante, pois foi essa lida que deu o suporte para construírem o que têm de melhor: a família.

Com enorme satisfação, eles contam que são muito felizes com a família e reconhecem que se esforçaram para dar boa educação aos filhos, que sempre que podem, ajudam os pais na mercearia. Leonardo e Larissa, aliás, são exemplos de como a família deu grande contribuição para a sociedade.

“Tivemos uma graça alcançada, pois tivemos todos os sonhos realizados. O de casar, de ter filhos, de construir uma família e ter um comércio, sempre trabalhando para construir um futuro para nós, para nossos filhos e para nossa comunidade”, conta Enaide.

Sobre os filhos, Laudemir complementa: “A gente só trabalha pensando neles, estão encaminhados, e graças a Deus são dois filhos maravilhosos.”