Por Roberto Requião

Nos últimos 200 anos, forjamos um grande país que detém mais de 15% das terras agricultáveis, da água doce de todo o planeta e de todos os recursos minerais ainda disponíveis no mundo. Possuímos a maior reserva florestal dentre todas as nações, reservas de vulto de combustíveis fósseis e um amplo espaço para produção de energia limpa e renovável.

O território deste país é abençoado – ausente dos espaços de cataclismas naturais. Este fantástico país é habitado por um povo especial, mestiço, sincrético, formado por gente de todo o mundo, dotado de identidade própria, que fala a mesma língua, que tem a mesma cultura, dotado da mesma memória e de sentimentos comuns.

Formamos mais que uma nação chamada Brasil. Criamos, nesses dois séculos, um enorme patrimônio: a BRASILIDADE. No entanto, todo esse imenso patrimônio atravessa a maior crise da sua história.

Uma crise dolorida, profunda e duradoura. Uma crise que se nutre na inexistência de diretrizes de lideranças que galvanizem o povo na construção de um Projeto Nacional e que insistem em dividi-lo e polarizá-lo. Para vencê-la temos de unir todas as forças vivas da nação para a defesa da BRASILIDADE. Para essa defesa, precisamos preservar cinco pilares que são nossos compromissos pétreos com o futuro de nosso país.

1- Compromisso com a democracia. Ele aponta para o aperfeiçoamento do sistema político brasileiro, em bases amplamente participativas, com o resgate da dignidade da função pública em todos os níveis;

2- Compromisso com a soberania. Ele representa nossa determinação de dar continuidade ao processo de construção nacional, buscando recuperar para o Brasil um grau suficiente de autonomia decisória;

3- Compromisso com a solidariedade. Ele explicita a construção de uma nação de cidadãos, eliminando-se as chocantes desigualdades na distribuição da riqueza, da renda e do acesso à cultura;

4- Compromisso com o desenvolvimento. Ele expressa a decisão de pôr fim à tirania do capital financeiro e à nossa condição de economia periférica. Assim, mobilizaremos todos os nossos recursos produtivos e não aceitaremos mais a imposição, interna ou externa, de políticas que frustrem o nosso potencial;

5- Compromisso com a sustentabilidade. Ele estabelece uma aliança com as gerações futuras, pois se refere à necessidade de buscarmos um novo estilo de desenvolvimento, socialmente justo e ecologicamente viável.

Para a realização plena desses compromissos, devemos rejeitar a divisão e nos unir. Essa união construirá a aliança social majoritária capaz de emponderar o povo brasileiro e sustentar esse projeto, que irá equipar e soerguer a maioria trabalhadora e fará a transformação das condições estruturais necessárias para vencer a crise, ordenar a economia e a sociedade, ancorar a inclusão social na dinâmica do crescimento e abraçar aqueles que praticam uma cultura de autoajuda e de iniciativa.

O cimento de nossa união será nosso projeto nacional que buscará os seguintes objetivos:

a) Transformar a educação brasileira, inaugurando um novo processo educacional com uma formação analítica e capacitadora; promovendo as iniciativas que reconciliem a gestão das escolas pelos estados e municípios, com padrões nacionais de investimento, equalizando qualidade do ensino em todo o território;

b) Retomar o desenvolvimento e a industrialização a partir de quatro setores-chave: agroindústria; complexo de defesa; energia; complexo de saúde e farmacêutico;

c) Promover uma produção qualificada baseada na nova economia do conhecimento, entendendo que a riqueza e desenvolvimento não estão mais na indústria tradicional, mas na moderna indústria rica em ciência, tecnologia e inovação que constrói a manufatura avançada, nos serviços intelectualmente densos e na agricultura científica e de precisão;

d) Reorganizar as regras, práticas, políticas, em suma, as relações de trabalho de forma a resgatar a maioria informal e precarizada da massa trabalhadora do aviltamento salarial e do subemprego;

e) Praticar um realismo fiscal, para obter autonomia e autossustentação no financiamento do desenvolvimento; e

f) Reorganizar o federalismo brasileiro para democratizar a produção e o ensino; substituir as atuais relações competitivas, predatórias entre União, estados e municípios por um federalismo cooperativo tanto vertical como horizontal.

Para tanto, contamos com uma base produtiva moderna, articulada e com um mercado de consumo que conserva imensa necessidade de produtos tradicionais. Todavia, precisamos aumentar a produtividade média do trabalho, reter em nosso espaço econômico a maior parte possível da riqueza criada e distribuir essa riqueza da forma mais equitativa. O que significa buscar outro padrão de desenvolvimento.

Diferentes formas de propriedade e de organização da produção devem existir de forma equilibrada, com generoso espaço para os empreendimentos de porte pequeno e médio, as cooperativas e todas as expressões da economia solidária. Ainda não somos um país rico e convivemos com brutais desigualdades. Mas, não somos miseráveis e caminhamos para a riqueza.

Ainda temos um parque industrial articulado e quase completo, uma população jovem, com presença marcante de quadros técnicos, uma moderna agricultura capaz de responder a estímulos adequados, um vasto espaço geográfico, recheado de recursos de todo tipo e capacidade científica.

Os dois séculos de vida do Brasil estão perguntando se a nossa geração vencerá a crise que vivemos e as nossas instituições terão a grandeza de fazer desabrochar a promessa civilizatória contida na sociedade brasileira. Convocamos todos os brasileiros que desejam responder que sim o façam repetindo que:

A BRASILIDADE VENCERÁ !

Carta ao ex-presidente denominada “Manifesto da Brasilidade”.