A mudança na jornada de trabalho no Brasil, com a transição do modelo 6×1 para o 5×2, exigirá das empresas revisão de custos, reorganização das equipes e planejamento para manter o funcionamento das operações. Os principais impactos foram apresentados na manhã desta quarta-feira, durante reunião de diretores da Acic (Associação Comercial e Industrial de Cascavel), pelo vice-presidente para Assuntos de Empregabilidade da entidade, Joaquim Pereira Alves Junior.
A apresentação abordou os efeitos práticos da redução da jornada sobre a folha de pagamento, o comércio, os contratos de prestação de serviços e a organização dos horários de trabalho. O objetivo foi destacar os pontos que exigirão maior atenção dos empresários, especialmente nas atividades que dependem de equipes presenciais e atendimento contínuo. A adequação antecipada será importante para dimensionar despesas e evitar dificuldades operacionais.
Redução da jornada e manutenção dos salários
Conforme o cronograma apresentado na reunião, a jornada semanal passará de 44 para 42 horas a partir de 16 de dezembro de 2026 e será reduzida para 40 horas em 16 de dezembro de 2027. A mudança prevê dois dias de descanso semanal, em substituição ao modelo de seis dias de trabalho para um de folga. Os salários atuais deverão ser mantidos, mesmo com a redução da carga horária.
Essa combinação terá reflexos diretos na organização das empresas. Com menos horas disponíveis de trabalho e a necessidade de preservar o atendimento, alguns negócios poderão precisar redistribuir tarefas, modificar escalas ou ampliar equipes. O impacto dependerá do setor, do número de funcionários, do horário de funcionamento e das características de cada operação.
Comércio terá de rever escalas
Um dos segmentos que exigirão maior planejamento é o comércio, especialmente as empresas que concentram parte das vendas aos sábados. A adoção de dois dias de descanso semanal exigirá a reorganização das equipes para manter o atendimento sem ultrapassar os limites de jornada. Estabelecimentos com poucos funcionários poderão enfrentar dificuldades para cobrir todos os horários.
Entre as alternativas a serem avaliadas estão a redistribuição das folgas, a revisão dos horários de funcionamento e, em alguns casos, a contratação de trabalhadores. Cada empresa precisará analisar o movimento comercial, os períodos de maior demanda e os custos envolvidos. A decisão de abrir ou fechar em determinados dias deverá considerar tanto as necessidades dos clientes quanto a viabilidade econômica da operação.
Custos da mão de obra exigem atenção
A manutenção dos salários com a redução da jornada também torna necessário recalcular o custo da hora trabalhada. As empresas deverão projetar os efeitos sobre a folha de pagamento e avaliar se a estrutura atual será suficiente para atender à demanda. Quando houver necessidade de contratar funcionários ou reorganizar turnos, as despesas poderão aumentar.
A situação merece atenção especial nos negócios que utilizam remuneração variável, como lojas que pagam comissões sobre as vendas. Segundo os dados apresentados, o descanso semanal remunerado incidente sobre as comissões poderá elevar esse componente de custo em aproximadamente 112%. O impacto poderá alcançar também férias, 13º salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e encargos sociais vinculados à remuneração dos comissionados.
Acordos coletivos e banco de horas
Outro ponto destacado foi a necessidade de revisar convenções coletivas e instrumentos de compensação de jornada. As empresas deverão verificar as regras aplicáveis à sua categoria e avaliar as possibilidades de adoção de banco de horas ou outros mecanismos de compensação, observadas as exigências legais e coletivas. A transição para a jornada de 42 horas semanais exigirá atenção à distribuição das horas ao longo da semana.
O diálogo com os trabalhadores e os sindicatos também será importante nos casos em que a reorganização depender de negociação coletiva. A jornada de oito horas diárias durante cinco dias, totalizando 40 horas semanais, foi apontada na apresentação como uma alternativa de organização. Ainda assim, cada empresa deverá observar as condições aplicáveis à sua atividade e aos contratos existentes.
Escalas especiais e contratos públicos
As empresas que utilizam a jornada 12×36, comum em hospitais, clínicas e serviços de vigilância, também precisarão avaliar os efeitos da mudança. Conforme a apresentação, esse regime poderá exigir ajustes e negociação sindical durante a transição. A revisão das escalas deverá considerar a necessidade de cobertura contínua, a disponibilidade de profissionais e os custos para manter os serviços.
Outro grupo que merece atenção é o das empresas com contratos públicos. A redução da jornada poderá elevar as despesas com pessoal e afetar as condições previstas para a execução dos serviços. Nesses casos, será necessário avaliar a possibilidade de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos, conforme as regras aplicáveis. Em obras e serviços contínuos, a mudança poderá gerar custos antes da conclusão das renegociações.
Planejamento deve começar pelo RH
Como medida prática, a apresentação recomenda que os setores de recursos humanos façam um levantamento dos trabalhadores e das jornadas atuais, identifiquem as áreas mais expostas às mudanças e calculem os possíveis efeitos sobre os custos. Também será necessário revisar escalas, convenções coletivas, contratos e sistemas de compensação de horas, considerando as particularidades de cada atividade.
A análise antecipada permitirá comparar cenários, estimar necessidades de pessoal e preparar ajustes para as diferentes etapas de redução da jornada. Para as empresas, o desafio será adequar a organização do trabalho, preservar a continuidade do atendimento e manter o equilíbrio financeiro. O planejamento será decisivo para que a transição ocorra com maior previsibilidade e menor risco de comprometer a produtividade e os resultados dos negócios.
Fonte: Assessoria





