Estrutura foi fundamental para os estudos que calcularam o potencial hidrelétrico do Rio Paraná e que embasaram o projeto da usina de Itaipu.

 

A estação hidrométrica Guaíra Porto, localizada na entrada do reservatório de Itaipu, próximo à cidade de Guaíra, completa 100 anos nesta quinta-feira, 25 de junho. A estação é de grande importância histórica: faz do rio Paraná um dos poucos no Brasil com acompanhamento hidrológico contínuo por um século, além de ter sido fundamental para os estudos que antecederam a construção da usina.

“Trata-se de uma das 35 estações mais antigas do Brasil, dentre mais de 20 mil cadastradas e de cinco mil gerenciadas pela ANA (Agência Nacional de Águas)”, afirma o engenheiro Luiz Henrique Maldonado, da Divisão de Estudos Hidrológicos e Energéticos (OPSH.DT), da Operação da Itaipu.

Em 1920, foi criada a Comissão de Estudos de Forças Hidráulicas, no âmbito do Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricultura, para conduzir estudos em hidrologia e em energia elétrica. Naquele mesmo ano, começaram as investigações em cinco áreas: Paulo Afonso, Rio Grande e Rio Preto, Barra do Piraí, Serra do Mar e Mantiqueira, e Sete Quedas.

Os trabalhos consistiam em realizar estudos completos sobre as cachoeiras, como levantamentos topográficos e nivelamentos dos desníveis d’água, mapa das regiões, descargas líquidas dos rios (em épocas de seca e de enchente), cálculos e orçamentos das obras para a captação de energia, informações sobre as condições de navegabilidade e confecção de desenhos e relatórios.

 

Na década de 1920, o município de Guaíra ainda não existia (viria a ser fundado em 1951). A localidade era conhecida por região do Guahyrá ou Porto Monjoli. Segundo a historiadora Cíntia Fiorotti, que defendeu sua tese de doutorado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) com um estudo sobre essa região (intitulada História de Trabalhadores e do Trabalho na fronteira Brasil-Paraguai 1960-2015), na época, a população era formada por guaranis, brasileiros, argentinos e paraguaios, e sua história está diretamente relacionada ao uso dos rios e à extração de erva-mate e madeira.

“Havia dinâmicas resultantes da circulação de pessoas e mercadorias, aumentadas com a presença da Companhia Matte Larangeira (1902-1944)”, explica Cíntia. “Em 1920, havia pouco controle por parte do Estado brasileiro sobre os fluxos entre países vizinhos. Uma parte dos bens industrializados e serviços especializados eram supridos pela circulação de pessoas e mercadorias até Assunção ou Buenos Aires”, acrescenta.

A propósito, foi a Companhia Matte Larangeira que, ainda em 1920, instalou réguas junto às Sete Quedas, com quedas de 114 metros para uma extensão de 52,2 km e volume de 11.860 m³/s, em novembro de 1920. O posto era caracterizado por três seções limnimétricas: a primeira na margem esquerda do Rio Paraná, junto às oficinas da antiga Companhia de Navegação da Bacia do Prata; a segunda na margem direita do braço direito do Paraná, a montante da extremidade inferior da Ilha Grande; e a terceira na margem direita do braço esquerdo do Rio Paraná.

Inicialmente, o interesse pela medição estava mais voltado às condições de navegabilidade do rio. Posteriormente, o potencial hidráulico ganharia importância. Na década de 1960, já com 40 anos de série histórica sobre o comportamento do Rio Paraná, começaram os estudos de vazão. Várias séries de medições foram realizadas por diferentes empresas nas duas décadas que se seguiram, incluindo as que permitiram a assinatura da Ata do Iguaçu, em 22 de junho de 1966, em que os governos do Brasil e do Paraguai confirmam a intenção de estudarem conjuntamente a viabilidade técnica e econômica do projeto hidrelétrico na região das Sete Quedas e, consequentemente, também da Itaipu.

Com o início da construção de Itaipu, foi criada a “Hidrologia da Obra” que, após a construção da barragem, foi incorporada à Diretoria Técnica. Em 1977, uma equipe da área realizou medições por 90 dias seguidos em Guaíra, com o objetivo de consolidar a relação quantidade de água x nível do Rio. O posto hidrométrico de Guaíra também foi importante para registrar a maior cheia da história do Rio Paraná, em 15 de junho de 1983, quando a vazão chegou a 39.870 m³/s. Vale destacar que a área de drenagem medida nesse ponto chega a mais de 800 mil km2.

“Guaíra tem uma série histórica que chega a 100 anos ininterruptos, o que é muito raro. Em épocas de crise, muitas estações foram fechadas no País”, conta Maldonado. “Uma série assim não beneficia apenas Itaipu, mas a sociedade em geral”.

Com o tempo, a estação também evoluiu tecnologicamente. O que antes era apenas uma régua para verificação visual foi, aos poucos, recebendo novos instrumentos. Nos anos de 1970, ganhou um sistema de boia e contrapeso, ainda para leitura no local. A partir de 2002, Guaíra Porto passou a integrar a rede do Sistema de Telemetria Hidrometeorológica (STH), com as medições de nível d’água e precipitação (chuva) sendo transmitidas de hora em hora por um sistema via satélite. Até então, as medições eram fornecidas exclusivamente por uma empresa terceirizada que realizava as leituras da estação às 7h, 12h e 17h. Apesar da evolução tecnológica, a Itaipu ainda mantém uma empresa contratada para a leitura local para comparação com os dados transmitidos via satélite.

Qualidade

Além do histórico de 100 anos de medições sobre a quantidade de água do Rio Paraná, completos agora, em 1977 Itaipu também passou a utilizar a estação hidrométrica de Guaíra para medir a qualidade da água. E, desde 2001, faz também a medição de sedimentos nesse mesmo local. Enquanto os dados sobre a quantidade ficam a cargo da Diretoria Técnica, os dados de qualidade e a sedimentologia são acompanhados pela Diretoria de Coordenação da Itaipu.

Cerca de 84% de todos os sedimentos (argila, silte e areia) que chegam ao lago passam pela estação de Guaíra Porto. “Diferentemente da água, que entra e sai do circuito hídrico, grande parte dos sedimentos se deposita gradualmente, ocupando o espaço que antes era destinado à água, reduzindo a vida útil do reservatório”, explica Anderson Braga Mendes, da Divisão de Reservatório (MARR.CD). “Por isso, ter o conhecimento detalhado não apenas da quantidade, mas também do tipo de material que está se depositando, é essencial”, completa.

“Guaíra é a porta de entrada do reservatório e, por isso, monitorar e conhecer a qualidade da água que chega para formação do lago é extremamente importante para a segurança hídrica e, consequentemente, para todos os usos do reservatório, tais como abastecimento público, irrigação, pesca e balneabilidade, dentre outros”, acrescenta Simone Benassi, que também atua na Divisão de Reservatório.

Por sua posição estratégica e pelas condições para oferecer informações sobre a qualidade e a quantidade de água que chega ao reservatório, a centenária estação de Guaíra Porto continua sendo de fundamental importância para a Itaipu. E, assim que as condições permitirem (em função da pandemia de covid-19), a empresa pretende homenagear os profissionais e marcar o centenário com a instalação de uma placa comemorativa.

A Itaipu

Com 20 unidades geradoras e 14 mil MW de potência instalada, a Itaipu Binacional é líder mundial na geração de energia limpa e renovável, tendo produzido, desde 1984, 2,7 bilhões de MWh. Em 2016, a usina brasileira e paraguaia retomou o recorde mundial anual de geração de energia, com a marca de 103.098.366 MWh. A hidrelétrica é responsável pelo abastecimento de aproximadamente 15% de toda a energia consumida pelo Brasil e de 90% do Paraguai.