Por Marcos Antonio Santos
Hospital Bom Jesus integra há 19 anos a rede de captação e transplantes; após a autorização da família, equipes de saúde, aeroportos, forças de segurança e transporte aéreo entram em ação para que os órgãos cheguem ao receptor dentro do tempo necessário
O Setembro Verde, campanha nacional de conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos, chama atenção para uma etapa decisiva e pouco conhecida do processo de transplantes: a logística para que um órgão retirado em uma cidade chegue, com segurança e rapidez, ao paciente que aguarda em outro município ou até em outro estado.
Em Toledo, essa corrida contra o tempo faz parte da rotina da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) da Hoesp/Hospital Bom Jesus. A comissão é coordenada por Itamar Weiwanko, que destaca que, depois da conclusão do diagnóstico de morte encefálica e da autorização da família, começa uma operação que exige rapidez, organização e integração entre diferentes instituições.
“Após a conclusão do diagnóstico de morte encefálica, inicia-se uma verdadeira corrida contra o tempo. Trata-se de um processo complexo, que exige rigorosa organização desde a confirmação dos exames e das sorologias favoráveis à doação até a efetiva implantação dos órgãos em outros pacientes”, explica.
Segundo Itamar, enquanto os órgãos são avaliados, também ocorre a seleção dos receptores compatíveis e a definição de toda a logística necessária para que o material chegue à instituição onde será realizado o transplante.
“O Hospital Bom Jesus participa ativamente desse processo há 19 anos, atuando com seriedade e profissionalismo para promover a continuidade da vida fora de nossa unidade”, afirma.
Cada minuto conta
Na logística dos transplantes, o tempo é um dos fatores mais importantes. Depois da retirada, cada órgão possui um período limitado em condições adequadas para ser transplantado. Por isso, todas as etapas precisam funcionar de forma sincronizada.

“Seja de dia ou à noite, final de semana, feriado, com chuva ou sol, isso precisa acontecer. Nós temos que agir rapidamente, depois do sim da família, para que tudo dê certo”, ressalta Itamar.
Em Toledo, a operação pode envolver o Hospital Bom Jesus, a Regional de Saúde, a Central Estadual de Transplantes, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) de Cascavel, aeroportos, equipes de segurança e outros parceiros responsáveis por estabelecer a melhor rota.
Quando necessário, o transporte também pode contar com aeronaves da Casa Militar do Paraná. Dependendo da situação, os órgãos seguem por via terrestre ou aérea.
O transporte aéreo tem papel estratégico especialmente porque um órgão pode precisar percorrer centenas ou milhares de quilômetros até encontrar seu receptor compatível.
No Brasil, a estruturação do transporte aéreo gratuito de órgãos ganhou força em 2013, com um acordo de cooperação entre órgãos públicos, companhias aéreas e entidades do setor. Serviços e Informações do Brasil
Desde 2024, a prioridade no transporte de órgãos, tecidos e equipes de captação também está prevista em lei. A Lei nº 14.858 determina que órgãos públicos, instituições militares e empresas públicas e privadas de transporte deem prioridade a esse tipo de operação. Presidência da República
Do hospital ao avião
Depois da captação, os órgãos são acondicionados seguindo protocolos específicos de segurança.
De acordo com Itamar, o material é devidamente coletado, embalado e acondicionado em sistema de tripla embalagem, com os elementos necessários para manter as condições adequadas até a chegada ao destino.
A partir daí, inicia-se uma nova etapa: o deslocamento.
Quando existe voo comercial disponível, o órgão pode seguir pela malha aérea regular. Em outras situações, aeronaves públicas ou militares podem ser acionadas. A operação envolve ainda o acompanhamento da malha aérea e a busca pelo melhor voo, trecho e rota para reduzir o tempo de deslocamento. O próprio governo federal descreve essa rede como uma operação permanente entre o Sistema Nacional de Transplantes, controle do espaço aéreo, aeroportos e companhias aéreas. Serviços e Informações do Brasil.

5.751 pessoas aguardam no Paraná
Conforme o levantamento informado pela coordenação da CIHDOTT do Hospital Bom Jesus, o Paraná possui atualmente 5.751 pessoas aguardando por um transplante.
Para Itamar, o número reforça a importância da conscientização.
“É extremamente importante essa reflexão. Amanhã pode ser você que esteja nessa fila. Então, se um dia você puder doar órgãos, faça isso. Converse com a sua família, deixe-a ciente e autorize a doação. É muito importante fazer com que essa fila diminua.”
Ela também destaca que todo o processo só é possível graças à atuação conjunta de diferentes profissionais e instituições.
“Temos que agradecer a todos esses parceiros que colaboram, de uma forma ou de outra, para que o processo aconteça aqui no Hospital Bom Jesus e a gente consiga encaminhar esses órgãos com segurança e qualidade até a pessoa que está esperando na fila.”
Uma decisão que coloca toda a rede em movimento
Antes de toda essa estrutura ser acionada, porém, existe uma decisão fundamental: a autorização da família.
No Brasil, a manifestação da família é indispensável para que a doação seja realizada. Por isso, conversar sobre o assunto em vida é uma das principais orientações das campanhas de conscientização.
Depois do “sim”, começa uma operação que pode envolver dezenas de pessoas, veículos, estradas, aeroportos e aeronaves.
Por trás de cada caixa transportada está uma família que autorizou a doação, profissionais que realizaram a captação e um paciente que aguarda por uma nova oportunidade de vida.
No transporte de órgãos, cada quilômetro percorrido também é uma corrida contra o relógio. Em Toledo, essa corrente começa dentro do Hospital Bom Jesus e pode terminar a centenas de quilômetros de distância, quando o órgão finalmente chega à sala cirúrgica e o transplante pode ser realizado.

O elo entre hospitais, aeroportos e equipes de transplante
Além das equipes médicas, de enfermagem e dos profissionais responsáveis pela organização das captações, os motoristas da Central Estadual de Transplantes também têm papel decisivo na corrida contra o tempo.
Sergio Costa, motorista da Central Estadual de Transplantes do Paraná há 11 anos, explica que o trabalho dos condutores funciona como uma extensão da própria equipe assistencial, especialmente porque são eles que fazem a conexão entre hospitais, aeroportos, aeronaves e laboratórios.
“Nossa responsabilidade envolve o translado das equipes médicas para os aeroportos Afonso Pena e Bacacheri, além do transporte dos órgãos captados nos hospitais. Fazemos essa integração entre as unidades de saúde, as aeronaves, com o apoio fundamental da Casa Militar, e também os laboratórios”, afirma.
Segundo Sergio, a prioridade é sempre reduzir o tempo de deslocamento e garantir que o órgão chegue ao destino dentro da janela necessária para o transplante.
“Nosso trabalho é vital para otimizar o tempo e encurtar distâncias. Muitas vezes, quando o transporte aéreo não é viável, especialmente em razão do tempo de isquemia do órgão, realizamos o percurso terrestre”, explica.
Essa atuação não se restringe ao Paraná. Dependendo da necessidade da operação, os motoristas também percorrem trajetos até cidades de Santa Catarina, como Joinville, Blumenau, Jaraguá do Sul, Itajaí e Florianópolis.
Onze anos nas estradas pela vida
Ao longo de mais de uma década na Central de Transplantes, Sergio afirma ter compreendido a dimensão da responsabilidade dos condutores dentro dessa engrenagem.
“Nosso papel é tão fundamental quanto o de médicos e enfermeiros, porque somos o elo que viabiliza a chegada do profissional e do órgão ao destino”, destaca.
Ele ressalta que a função exige responsabilidade, preparo e disposição para enfrentar longos percursos, independentemente do horário ou das condições da estrada.
“É um trabalho que exige dedicação, responsabilidade e a consciência de que somos peças importantes nessa engrenagem que salva vidas”, afirma.
Para Sergio, cada viagem carrega também o peso da expectativa de quem aguarda por um transplante.
“Tenho muito apreço pela minha função e orgulho de fazer parte dessa missão. Procuramos conduzir as equipes com zelo e profissionalismo, superando os desafios das estradas para que o transplante possa ser concretizado.”
O relato reforça que, por trás de cada transplante realizado, existe uma ampla rede de profissionais que trabalha de forma sincronizada. Do hospital ao aeroporto, da aeronave à estrada, cada etapa precisa ocorrer dentro do tempo necessário.





