Pesquisadores da Unioeste/Toledo encontram destino inovador para o resíduo capilar
Já parou para pensar que todos os dias nós geramos vários resíduos? Podem ser restos de comida, embalagens ou outros materiais. De acordo com a pesquisa da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), cada brasileiro gera, em média, 1 quilo de lixo por dia.
Se formos considerar apenas os resíduos gerados por pessoa, esses, por si só, já promovem impacto significativo para o meio ambiente. Agora, imagina o lixo que também é gerado diariamente por comércios, empresas e indústrias. Por isso, as práticas de consumo consciente, a destinação adequada aos resíduos e a reciclagem são tão importantes.
Com tanto lixo gerado, é cada vez mais comum encontrarmos pesquisas dedicadas não apenas a dar novos destinos a materiais que seriam descartados, mas também a desenvolver soluções inovadoras para o seu reaproveitamento.
Uma das pessoas que pesquisou uma solução pra lá de revolucionária para o reaproveitamento de um resíduo foi a Gabriela Martines Gimenes. Cabeleireira há 12 anos, desde o início da atuação na sua profissão ela conta que os resíduos de cabelos cortados têm sido uma grande interrogação em sua cabeça. “Eu sempre me perguntava o que fazer com eles”, conta Gabriela.
Enquanto já atuava no salão, ela começou a licenciatura em Ciências Biológicas, no Instituto Federal do Paraná (IFPR), campus de Assis Chateaubriand, mas não se encontrou na graduação e acabou trancando a matrícula por um tempo. Depois de um período, decidiu retornar aos estudos e terminou o curso em 2022, colou grau em 2023 e engatou, no mesmo ano, o mestrado na linha de pesquisa em Tecnologias Aplicadas ao Meio Ambiente, no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Campus de Toledo.
Sendo cristã, Gabriela conta que sempre ora antes de fazer qualquer coisa e, na semana que iria ter uma primeira entrevista com o seu orientador, pediu a Deus para mostrar a ela o que fazer, pois, mesmo finalizando a graduação, ainda se encontrava perdida na vida acadêmica.
Coincidentemente, naquela mesma semana ela tinha cortado muito cabelo e sua lixeira estava cheia desse resíduo. Com isso, o sentimento de “o que fazer com o cabelo?” veio à tona novamente, fazendo surgir a ideia de buscar um aproveitamento mais sustentável para o material capilar.
Com isso em mente, foi ao encontro do seu orientador, o professor da Unioeste, Cleber Antonio Lindino, que atua no campus de Toledo, nos Programas de Pós-Graduação em Química e em Ciências Ambientais.
Em conversa com o professor, uma das propostas levantadas foi utilizar o material capilar como fertilizante, pensando, também, na economia circular e “como esse resíduo pode ser, de repente, matéria-prima de outro setor produtivo”, conta Cleber Antonio Lindino.
O que faz o cabelo ser um bom material para um fertilizante?
A ideia para esse projeto não apareceu do nada, o professor conta que na literatura já existiam algumas informações sobre o uso do material capilar como fertilizante, porém, de forma muito esparsa, sem estudos conclusivos. Por isso, o primeiro passo foi pesquisar o material mais a fundo e produzir um estudo científico com a caracterização do cabelo.
Durante esse processo, os pesquisadores foram encontrando resultados interessantes, como o fato do material capilar ser uma fonte de nitrogênio, um elemento bastante importante na agricultura. “Nós fizemos um teste na parte química que comprovou qual era o teor de nitrogênio desse material. Também encontramos outros micronutrientes, entre eles o próprio carbono, um pouco de enxofre, hidrogênio e oxigênio”, conta Cleber.
Unindo forças
Como o professor é da área da química e Gabriela da biologia, eles buscaram parcerias na parte agronômica e encontraram os professores da Faculdade Unimeo de Assis Chateaubriand, Bruno Marcos Nunes Cosmo e Deysiane Lima Salvador, que deram apoio nessa área, ajudando, por exemplo, nos cálculos que indicaram a quantidade exata de cabelo que deveria ser utilizada para fornecer uma quantidade de nitrogênio adequada para planta.
O próximo passo foi fazer a coleta dos resíduos capilares e os encaminhar para um tratamento simples, visando a utilização como adubo. Esse processo também foi realizado em parceria com os professores da Unimeo e envolveu testes em estufa. Os resultados foram analisados estatisticamente e verificou-se diferença significativa na produtividade e na qualidade de algumas espécies em que o material capilar tratado foi utilizado como fertilizante.
Mudança de objetivo
O projeto que iniciou buscando dar um descarte adequado para os cabelos cortados, agora, possui um novo objetivo: transformar esse resíduo em algo útil, de valor, não só para o solo, mas também para a população. “Se essa ação acontecer, nós podemos transformar a sociedade, criando novos pontos de trabalho, uma coleta, deixando a cidade mais limpa e, também, mais inteligente”, afirma Gabriela Gimenes.
No Brasil, cerca de 85% de todos insumos usados na agricultura vêm de fora, o que faz o país pagar muito caro pelos fertilizantes nitrogenados. Com essa ideia inovadora e sustentável, seria oferecido aos produtores um fertilizante de origem nacional, orgânica, com custo acessível, vindo de um produto que seria descartado e que está sendo reaproveitado de forma inédita. Imagina só, que demais!
Claro, isso não vai resolver o problema das toneladas de fertilizantes nitrogenados que são utilizados no país, porém essa solução pode ajudar a reduzir muito o custo. “Para pequenos agricultores seria extremamente importante diminuir os gastos em relação a fertilizantes, principalmente, os nitrogenados. Dessa forma, o projeto aborda três aspectos fundamentais da sustentabilidade, o econômico, o ambiental e o social”, explica o professor Cleber.
Indo além, Gabriela Gimenes também destaca o engajamento dos salões de beleza com a sustentabilidade. “O nosso nicho é muito focado na beleza e são bem tímidos os projetos para esses processos de sustentabilidade, de consciência verde. Então, acredito que seria interessante trazer o olhar desses profissionais para movimentar esse meio”, acrescenta Gabriela.
Próximos passos
Com os resultados obtidos até o momento, a pesquisadora já conseguiu defender seu mestrado, porém, a dissertação não está disponível neste primeiro momento. O grupo vem finalizando detalhes, reunindo dados e escrevendo sobre a inovação do processo que transforma o cabelo em um produto que pode ser utilizado no adubo, para fazer a solicitação de patente.
Após esse passo, que ocorre via agência de inovação da Unioeste, eles vão trabalhar no projeto de forma mais tranquila, produzindo, inclusive, um artigo científico.
Um dos estudos que está em andamento é sobre a análise da utilidade de cabelos que passaram por diferentes tratamentos capilares, como alisamento ou tintura. “Nós estamos tomando esse cuidado de buscar possíveis contaminantes que possam advir do cabelo. Afinal, ele também é um absorvente muito bom. Então, estamos investigando para que a gente amarre todas as partes que indique as possibilidades de usar esse material capilar como um fertilizante”, acrescenta o professor Cleber.
Esse projeto mostra como uma ideia inicial pode ser transformadora. A problemática levantada por Gabriela, lá no início, de como reutilizar o cabelo, virou uma pesquisa básica e aplicada, inclusive em nível laboratorial, e foi alçando etapas mais avançadas. Nesse percurso, desenvolveu-se um protótipo utilizando o processo de fabricação do material capilar, seguido pela realização de testes.
Atualmente, o projeto já atingiu um nível de desenvolvimento tecnológico que permite a elaboração de um plano de negócios. Por exemplo, a criação de uma pequena empresa que utilize esse processo não apenas para reduzir resíduos, mas também gerar um novo produto que pode, por sua vez, ser empregado como alternativa para diminuir a dependência de fertilizantes nitrogenados vindos de fora.
E isso tudo só mostra como as universidade públicas conseguem, de diversas maneiras, retribuir seus investimentos para a sociedade! É mais um trabalho inovador feito em terras paranaenses!
Quer conhecer mais trabalhos que encontram soluções inovadoras utilizando resíduos? Leia as matérias: “Produção de asfalto com cinzas de bagaço de cana” e “Macaúba vira embalagem”, disponíveis no nosso site.
Fonte: Conexão Ciência/ Milena Massako Ito