Da Redação
Falta de insumos e atraso de salários expõem situação crítica na cozinha da unidade
Profissionais da saúde foram informados de que não haveria refeições no refeitório por falta de suprimentos na cozinha e pelo atraso no pagamento dos funcionários da cozinha do Hospital Regional de Toledo.
A orientação foi constrangedora: quem puder, leve marmita de casa ou vá almoçar em casa no intervalo.
Em outras palavras, médicos, enfermeiros e técnicos que trabalham salvando vidas estão tendo que improvisar a alimentação porque a gestão não consegue garantir o funcionamento mínimo interno. É o retrato do descaso.
Em média, são servidas 1.000 refeições por dia, entre café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Somente para funcionários do hospital, são cerca de 200 refeições.
NUTRIL – Os colaboradores da cozinha foram contratados por uma empresa terceirizada chamada Nutril Fornecimento de Alimentos Ltda – EPP (Nutril Manaus), com sede em Manaus (AM), ativa desde abril de 2022. A principal atividade econômica é o fornecimento de alimentos preparados, operando no setor de refeições coletivas, com situação cadastral ativa.
45 DIAS SEM RECEBER – A chefe da cozinha, Ana Maria Batista Ribeiro Farias, diz que está trabalhando praticamente 24 horas por dia por causa da ausência de outra cozinheira, que está doente. Ela está há 45 dias sem receber salário, e os insumos estão no fim, com previsão de entrega nesta quarta-feira (18).
“Se os insumos não chegarem, os pacientes ficarão sem carne e sem comida de qualidade. A situação é grave”, afirma a cozinheira.
Em relação aos alimentos, Ana diz que ainda há alguns, mas a situação é crítica. “A previsão é que a entrega dos insumos ocorra. Caso cheguem, prepararemos refeições apenas para os pacientes, a menos que o pagamento seja efetuado. Ontem (terça-feira), conversei com a administração e me prometeram o pagamento para hoje (quarta-feira). Estamos aguardando. Caso isso ocorra, iniciaremos imediatamente o preparo das refeições para os funcionários. Caso contrário, seguiremos atendendo apenas os pacientes. Se os insumos não chegarem, a alimentação dos pacientes será comprometida, impactando a qualidade e a disponibilidade de alimentos nutritivos. Hoje foi o último dia em que tivemos carne, e não há mais estoque”, revela.
Ela relata que, embora seja a funcionária mais antiga, não se recorda de ter chegado a essa situação antes. “Em outros momentos, a empresa conseguiu manter o pagamento dos funcionários por seis meses, mesmo enfrentando dificuldades financeiras”.

GRAVE – Senira Matos da Silva também está indignada com a atual situação. Ela, que trabalha no hospital há oito meses, está insatisfeita com a nova empresa de alimentação, que substituiu a anterior, a Mais Sabor, que funcionava bem. Ela relata atrasos salariais e falta de alimentos, afetando funcionários, pacientes e médicos.
“O fornecimento de alimentos era regular, embora pudessem ocorrer pequenas faltas, que não comprometiam o atendimento aos funcionários, pacientes e médicos que ali se alimentavam. Atualmente, a situação se deteriorou, com atrasos salariais e outras dificuldades. A realidade é que a situação é grave e não pode ser ignorada. Recebi alertas sobre os riscos de expressar minha opinião, mas não hesito em falar a verdade. Acredito que a honestidade é fundamental. A maior dificuldade, tanto como profissional quanto como pessoa, está na impossibilidade de cumprir responsabilidades financeiras, como pagamento de cartões de crédito e empréstimos. Trabalhamos por necessidade, mas também por satisfação. Gosto do meu trabalho, que envolve o contato com os pacientes. Durante os oito meses em que estou aqui, trabalhei em diversas áreas da cozinha e sempre apreciei o ambiente. A situação mudou com a nova empresa contratada, que atua há 45 dias. Nos primeiros sete dias, houve pagamento correto e fornecimento de todos os insumos. Após esse período, começaram os problemas”, desabafa Senira.
FALTA DE PAGAMENTO – O encarregado da cozinha do hospital, Jackson José Pereira, também confirma atrasos no pagamento de salários e na entrega de insumos pela nova empresa, Nutril.
“Os salários de fevereiro estão 12 dias atrasados, e a entrega de alimentos está comprometida, especialmente carnes. Isso afeta a qualidade das refeições dos pacientes e sobrecarrega os funcionários, que estão trabalhando em turnos maiores e sem receber. A situação parece afetar outras áreas do hospital, como enfermagem e medicina, possivelmente devido a problemas com o IDEAS (Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde), responsável pelo pagamento. A empresa Nutril não tem dado respostas sobre a situação, e os funcionários estão trabalhando mesmo sem pagamento para garantir o atendimento aos pacientes”.
CARGA HORÁRIA – De acordo com ele, diante da falta de insumos e do atraso salarial, a equipe tem se dedicado a garantir o bem-estar dos pacientes.
“Muitos funcionários expressaram preocupação, pois dependem do salário para pagar aluguel, sustentar suas famílias e garantir alimentação. Uma funcionária, inclusive, relatou a impossibilidade de comparecer ao trabalho sem receber, pois precisa levar alimentos para casa. Tenho me dedicado a auxiliar na cozinha, cumprindo jornadas estendidas, frequentemente iniciando às 5h e encerrando entre 18h e 19h, ultrapassando 12 horas diárias há cerca de dez dias. A cozinheira e eu temos nos esforçado para manter o funcionamento da cozinha”.

PREOCUPAÇÃO – A equipe tem buscado constantemente informações e demonstra angústia.
“Muitos estão trabalhando sozinhos nas refeições, e enfermeiros, em alguns casos, têm feito plantões duplos, chegando a ficar sem alimentação, já que não podem trazer comida de casa”.
PAGAMENTO – Em relação à falta de pagamento, a situação não se restringe à cozinha e se estende a outras áreas do hospital. De acordo com as informações, há relatos de atrasos salariais em setores como enfermagem, que pode estar com dois meses de salários em atraso, além de médicos.
“Acredito que o problema não está diretamente relacionado à empresa que nos contratou, mas ao órgão responsável pelo repasse de verbas. Entramos em contato com a empresa, mas não obtivemos resposta. Já nos prometeram pagamento em diferentes datas, sem sucesso. A situação persiste, e muitos funcionários seguem trabalhando sem receber, dedicando-se ao cuidado dos pacientes”, relata Jackson.
MIL REFEIÇÕES – A equipe da cozinha do hospital regional está sobrecarregada e com falta de pessoal, devido a desfalques e problemas de abastecimento. A demanda é alta, com cerca de mil refeições diárias para funcionários, pacientes e acompanhantes. A situação é crítica, pois a falta de insumos já afeta a capacidade de fornecer refeições adequadas, especialmente para pacientes que necessitam de dietas específicas.
“A situação, embora represente um desfalque, ainda é administrável. No entanto, precisamos preparar refeições diárias — café da manhã, almoço, lanche e jantar — para cerca de 80 a 100 funcionários, além de 30 a 50 pacientes, muitos com acompanhantes, totalizando, em média, mil refeições por dia. Devido à escassez de suprimentos, elaboramos um parecer à administração recomendando a priorização dos pacientes, especialmente aqueles com dietas restritivas, como renais e diabéticos. Estamos fracionando os recursos para atender essas necessidades. Contudo, essa estratégia é viável somente até hoje (terça-feira). Caso não haja uma resposta definitiva e reposição dos insumos, há risco de falta de alimentos para os pacientes já a partir de amanhã (quarta-feira)”, finaliza Jackson.





