O número de corridas de rua no Brasil cresceu de forma acelerada nos últimos anos e trouxe uma nova onda de praticantes amadores para o esporte. Dados apresentados à Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Eventos Esportivos e divulgados pela Confederação Brasileira de Atletismo indicam que o país teve um aumento de mais de 29% nos últimos anos, só no Rio de Janeiro em 2025 foram 209 provas, contribuindo para a maior concentração na região Sudeste.
Com mais pessoas correndo e maior frequência de treinos, aumentam também as queixas relacionadas a lesões por sobrecarga. Entre as mais comuns está a síndrome do estresse tibial medial, conhecida como canelite, caracterizada por dor na parte interna da canela durante ou após a corrida.
A fisioterapeuta Mariana Milazzotto, mestre em Ciências Médicas, explica que o crescimento dos casos está ligado principalmente à forma como muitos amadores entram no esporte. “A canelite costuma aparecer quando o corpo não acompanha a carga do treino. O problema não é correr, mas correr mais do que o osso e a musculatura conseguem suportar por semanas seguidas”, afirma.
Estudos indicam que até 44% dos corredores de rua apresentam algum tipo de lesão, especialmente quando há aumento rápido de volume e intensidade. No caso da canelite, revisões científicas apontam que ela responde por 13% a 17% das lesões em corredores e pode representar até 35% das lesões por sobrecarga em populações esportivas.
Pisada e dor na canela
Um dos fatores que costuma aparecer associado à canelite é a forma como o pé toca o chão durante a corrida. A chamada pronação, movimento natural do pé para dentro ao pisar, tem papel importante na absorção do impacto do solo. O problema surge quando esse movimento ocorre de forma exagerada ou por tempo prolongado.
Quando o pé “cai” demais para dentro, o impacto da corrida deixa de ser bem distribuído. Isso pode sobrecarregar músculos, tendões e ossos da perna, especialmente a região da canela. Com o tempo, essa sobrecarga repetitiva favorece processos inflamatórios e o surgimento da dor.
O controle desse movimento depende da força e da resistência de músculos do tornozelo e da panturrilha. Quando essa musculatura se cansa rapidamente ou não funciona de forma eficiente, o pé perde estabilidade durante a corrida. Como consequência, a perna passa a trabalhar de forma menos equilibrada, aumentando o estresse sobre a tíbia.
Como identificar a canelite
Segundo a fisioterapeuta, o sintoma mais comum é dor difusa na parte interna da canela, que piora durante a corrida e melhora com descanso, mas retorna no treino seguinte. Também pode haver sensibilidade ao toque ao longo do osso da perna.
Há sinais de alerta que indicam necessidade de avaliação médica, como dor localizada em um ponto específico, dor que persiste mesmo em repouso, dificuldade para caminhar, inchaço, mudança de cor da pele, formigamento ou perda de força. “Quando a dor muda de padrão ou começa a aparecer fora do treino, não dá para insistir”, alerta Mariana.
Tratamento e prevenção
O tratamento envolve ajuste de carga, reabilitação fisioterapêutica e retorno progressivo aos treinos. A orientação inicial costuma ser reduzir volume, evitar tiros e treinos em subida por um período e reorganizar a semana com dias de descanso. O fortalecimento da panturrilha e dos músculos do pé também faz parte da recuperação.
“A dor não deve ser encarada como algo normal da corrida. Na maioria dos casos, ela é um sinal de que algo precisa ser ajustado no treino ou no corpo”, conclui a fisioterapeuta.
Fonte: Paulo Novais Assessoria de Imprensa





