Isolamentp Covid-19. Crédito Pixabay

Por Professora Andreia Vicente da Silva

Acaba de ser publicado o parecer 131045 do  Conselho Médico Paulista que trata das visitas virtuais a pacientes internados nos hospitais com covid-19. Uma das principais consequências de tal instrução pode ser a  proibição das visitas virtuais a pacientes inconscientes, principalmente os intubados. Uma das alegações é que o direito ao sigilo da relação médico-paciente deve ser preservada dada a incapacidade de decisão do doente. É preciso discutir esta decisão uma vez que tal sugestão, se tornada prática, é contrária ao que vem sendo compreendido como práticas de “boa morte” uma vez que agrava o quadro de isolamento já imposto pelo protocolo de manejo de corpos em contexto de covid.

Sabemos que o protocolo de biossegurança da pandemia isolou os doentes nos hospitais uma vez que para conter a disseminação da doença, uma das instruções de manejo é o impedimento das visitas dos familiares aos hospitalizados. Tal proibição tem gerado enorme frustração tanto para aqueles que estão isolados quanto para os familiares que, em geral, têm tido acesso a informações a respeito do estado de saúde dos infectados através de ligações telefônicas através das quais conversam com os médicos.

O debate sobre a “morte moderna” como um processo que produziu a intensificação da solidão dos doentes nos hospitais já é antigo e consolidado no campo das ciências sociais da saúde. Os prejuízos do isolamento dos doentes, da medicalização excessiva, da intervenção de máquinas para prolongamento do estado vegetativo dos doentes foram amplamente documentados em pesquisas das mais diferentes áreas. Como alternativa a estes modelos, foram desenvolvidas técnicas de “humanização” e “cuidados paliativos” nas quais assegura-se, entre outros direitos, a interação dos doentes com pessoas do seu convívio familiar e afetivo, mesmo quando estão inconscientes e submetidas aos cuidados institucionalizados dos médicos. A obrigatoriedade das visitas nos hospitais, mesmo nas Utis, foi resultado destes esforços para restituir à família o lugar central no processo de recuperação da saúde dos doentes ou em casos em que a despedida para a morte é inevitável.

Uma das explicações para a instrução do Cremesp é que “não seria possível a alegada interação com os familiares”. No entanto, como antropóloga, tenho que discordar desta afirmação que parece restringir a interação social ao contexto da consciência, um tipo de atividade que seria exercida de forma intencional pelo paciente. É preciso perguntar: o que é interação social? Como ela acontece? Quais os seus resultados?

A interação social diz respeito a uma série de possibilidades de ação no mundo que são vivenciadas por nós em nossos cotidianos. Ao longo da nossa trajetória nossos sentidos são educados, através da socialização, para detectar padrões de relacionamentos e associá-los a certas sensações e sentimentos. É notável a nossa capacidade de identificar cheiros, gostos, sons e cores que nos remetem a determinadas memórias. Essas associações nem sempre são conscientes mas são vividamente identificadas com certas experiências. Ou seja, os nossos sentidos estão treinados para compreender e reproduzir certos padrões emocionais que tendem a se repetir ao longo de nossa trajetória. Por exemplo, encontros afetivos são associados a sensações de felicidade e saciedade e geram emoções positivas.

Diante desta compreensão do que é interação social e de que ela envolve muito mais do que decisão consciente, podemos afirmar que um relacionamento social constituído através de vínculos afetivos se preserva, mesmo em situação de inconsciência, na qual o paciente pode sentir e se beneficiar com pequenas ações de cuidado, tal qual ouvir uma canção ou mesmo escutar palavras reproduzidas na voz de um de seus queridos por meio de celular. Da mesma forma, quando a família interage com esse paciente, visualizando, conversando, chorando e compartilhando a sua dor, mesmo que através das tecnologias, as sensações e sentimentos transmitidos durante aquele breve momento são especiais e imprescindíveis para a constituição da experiência de doença.

Um outro dado a ser discutido, é que muitas vezes, dado o protocolo rígido de biossegurança, num contexto onde os caixões são lacrados e os velórios inviabilizados, a interação com o doente terminar por videochamada é a única forma de despedida possível. Privar os doentes e os familiares destes encontros que finalizam ciclos de vida aprofundará a crise pandêmica que estamos vivendo. Esta instrução expõe todos nós a um retorno àquela experiência de doença e morte hospitalizada solitária a qual as instruções médicas mais contemporâneas, pesquisas científicas atuais e normas de direitos humanos tem insistentemente procurado ultrapassar.

Somos totalmente contrários a tal medida uma vez que, se esta instrução se tornar norma tanto nos hospitais paulistas quanto em nível nacional, o seu resultado será a intensificação do sofrimento dos doentes e o aprofundamento da epidemia de luto complicado que já é um dado verificado no cotidiano dos brasileiros e brasileiras em período pandêmico.  Por Professora Andreia Vicente da Silva, Unioeste Toledo.