O velho Tibúrcio estava reclinado em sua cadeira de balanço mal ajeitada em sua varanda cheiinha de samambaia e demais folhagens – todas devidamente plantadas e potes, latas e latinhas – pitando seu cigarrinho e tomando um bom mate enquanto dava uma olhada no seu “zap-zap”, pois, como bom tiozão do whatsapp, ele tem que se manter bem informado. Aí, lá pelas tantas, depois de ter feito roncar, solito, umas seis cuias de chimarrão, resolveu dar uma cutucadinha no seu celular e mandar uma mensagem para o seu amigo Juvêncio.

 

TIBA: Saudações meu caro Juvêncio! (Sim, seu Tibúrcio é todo formal no começo das prosas digitais. Ele faz isso pra matar saudades do tempo das cartas e postais) Como vai? Rogo aos céus que tudo esteja bem. Faz um tempo que você não vem pra cá para assuntarmos um pouco. Na verdade, não faz tanto, mas desde que começou essa pandemia do saci, a gente tem a impressão que o tempo ficou meio “coisado”. “Sacumé” né… Imagino que não seja diferente aí em Cafundó, onde você mora. Mas, chega de lesco-lesco. Me conte alguma novidade homem de Deus.

 

Seu Juvêncio demora um pouco para responder. Cinco minutos. Dez minutos. O velho Tiba já estava ficando pau da vida ao ponto de ligar para o amigo e, de repente, eis que ele vê na telinha do seu celular algo aparecer junto ao nome do seu amigo: digitando…

 

JUVÊNCIO: Fala aí cara mal lavada! O que você anda inventando por essas bandas?

 

O velho ficou faceiro da vida e, sem demora, pôs-se a conversar com o velho amigo para não perder o fio da meada.

 

TIBA: O de sempre índio velho. O de sempre.

 

JUVÊNCIO: Aqui o trem tá pegando fogo Tiba. Nem te conto.

 

TIBA: Como assim? Desembuche.

 

JUVÊNCIO: Então, você sabe que não sou bacharel em patavina alguma, mas confesso que essa situação toda de pandemia sempre me pareceu muito da esquisita.

 

TIBA: Também achei isso desde o início.

 

JUVÊNCIO: Você deve estar acompanhando os jornais e deve ter visto que o Presidente enviou para Estados e municípios uma grana federal e, agora, a Federal está baixando três por quatro em todos os cantos do Brasil por causa de denuncias de corrupção. Você viu isso?

 

TIBA: Sim, claro que vi. Faço parte de um grupo no whatsapp de velhos amigos – todos gente boa – onde me mantenho bem informado.

 

JUVÊNCIO: Sei que é um grupo pra sem manter informado. No mínimo só tem sacanagem nesse troço.

 

TIBA: Não! Esse é sério. O de sacanagem é outro. Aliás, se postar besteira nesse grupo a gente leva gancho sem dó nem piedade. Mas deixe meus contanto quietos. Quero saber do que você estava me contando. Continue.

 

JUVÊNCIO: Sim. É claro. Foi enviado aqui pra Cafundó quase um milhão de pilas para o combate da tal doença do Chinguilingue. Foi um deputado, sem intenção política alguma, que intermediou o envio para o nosso município dessa grana toda e, sinceramente, acredito mesmo que esse gesto é sem segundas intenções mesmo.

 

TIBA: Já está bêbado a essa hora homem de Deus? Como assim sem segundas intensões?

 

JUVÊNCIO: Acho que sim meu amigo, pois não vi nada publicado em lugar nenhum sobre o assunto. É só pra ajudar o povo mesmo.

 

TIBA: Vixi! Isso não vai terminar bem. Aqui aconteceu algo parecido, mas um vereador, o que tinha contato político com um figurão do Congresso Nacional, publicou uma notinha no perfil dele no facebook e aí o povo viu, curtiu, compartilhou e eu e mais uns, é claro, sprintamos a publicação antes que ele apagasse.

 

JUVÊNCIO: E agora?

 

TIBA: E agora vamos esperar pra ver o que acontece.

 

JUVÊNCIO: No mínimo vão vir com aquela conversa fiada pra disfarçar e mudar de assunto.

 

TIBA: Claro! Capaz que esses abençoados vão fazer compras superfaturas, emitir notas de serviços que nunca foram prestados e outras coisas do gênero pra fazer um caixinha (dois, três, quatro…) para as eleições, não é mesmo? Isso pode acontecer aí em Cafundó e em outros lugares do Brasil, agora, aqui em Lalalândia, nunca. Aqui só tem gente boa.

 

JUVÊNCIO: É claro. Com certeza. Começando por você não é mesmo Tiba?

 

TIBA: Com certeza.

 

JUVÊNCIO: Enfim, sigamos em frente com o causo. Eu achava estranhando, no começo, porque parecia que muitos prefeitos torciam para ter casos dessa tal doença nova em seus municípios e, confesso, eu não entendia a razão disso. Parecia que eu estava no meio de um filme B como o “Todo mundo em pânico”.

 

TIBA: Cara, no começo eu achava tudo isso muito assustador. Hoje tenho uma impressão parecida com a sua.

 

JUVÊNCIO: Quando a gente é meio ruim acaba querendo achar ponta em tudo.

 

TIBA: Verdade.

 

JUVÊNCIO: No começo quando eu vi essa folia de Estado de Calamidade Pública pra tudo que é lado e aí, pensei: vão lavar a égua fazendo compras superfaturadas. Estava enganado. Onde já se viu pensar isso das pessoas, não é mesmo? Quem, em sã consciência iria aproveitar uma situação como essa pra tirar algum proveito?

 

TIBA: Teu tio Pafúncio. Aquele teu primo, o Cornoaldo.

 

JUVÊNCIO: Que é isso Tiba?

 

TIBA: Estou brincando seu tongo. Mas tem muita gente ruim nesse mundo, inclusive em Cafundó e aqui em Lalalândia.

 

JUVÊNCIO: Pois é.

 

TIBA: Mas foi bom falar com você menino. Não fique tanto tempo sem dar notícias e, quando puder, dê um pulinho aqui no nosso rancho para assuntarmos e matearmos ao vivo e a cores.

 

JUVÊNCIO: Pode deixar seu Tiba. Um abraço por trás pro senhor e pra todos aí na sua casa.

 

TIBA: Olha o respeito…

 

Seu Tibúrcio saiu do zap, levantou-se, foi até cozinha, largou a chaleira e a cuia sobre a pia e colocou o celular pra carregar e, sem demora, foi tratar das criações, rindo sozinho, imaginando a cara do amigo quando abrir o vídeo de “gemidão do whatsapp” – com cara de notícia séria – que mandou para o Juvêncio junto com uma indecorosa figurinha.

Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela,

fessor, escrevinhador, poeteiro, radiador, bebedor de café.

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