Da Redação
Relação divulgada em grupos de WhatsApp expõe estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços, provocando preocupação com possíveis boicotes. Empresário nega envolvimento partidário e cobra responsabilidade de quem compartilha as mensagens
A polarização política que marcou as eleições presidenciais de 2026 começa a produzir reflexos preocupantes no comércio de Toledo. Após o segundo turno, realizado no último domingo (25), uma lista identificando empresas e estabelecimentos comerciais como supostos apoiadores do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a circular em grupos de WhatsApp e nas redes sociais.
A relação inclui empresas de diferentes segmentos, como lojas de calçados, óticas, chaveiros, lanchonetes, assistências técnicas, floriculturas, borracharias, transporte de passageiros, turismo, escritórios de contabilidade, estética automotiva, serviços de pintura, postos de combustíveis, comércio de alimentos e agropecuárias.
A Gazeta de Toledo optou por não divulgar os nomes dos estabelecimentos, uma vez que não há comprovação de que as empresas relacionadas tenham declarado apoio político ou autorizado a utilização de seus nomes nessas publicações.
A divulgação provocou reação de pelo menos um empresário do município, que veio a público negar qualquer vinculação partidária de seu estabelecimento e pedir responsabilidade às pessoas que compartilham as mensagens.
Flávio Bolsonaro venceu em Toledo nos dois turnos
A circulação da lista ocorre em uma cidade onde Flávio Bolsonaro (PL) conquistou ampla maioria dos votos nas duas etapas da eleição presidencial, embora Lula tenha sido reeleito presidente da República.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 56.579 votos (66,12%) em Toledo, enquanto Lula obteve 22.331 votos (26,10%).
Já no segundo turno, em 25 de outubro, Flávio ampliou sua votação para 60.499 votos (68,59%), contra 27.703 votos (31,41%) de Lula.
O candidato do PL conquistou 3.920 votos adicionais entre os dois turnos. Lula, por sua vez, cresceu 5.372 votos, reduzindo a diferença absoluta entre os candidatos de 34.248 para 32.796 votos.
No segundo turno, 90.394 eleitores compareceram às urnas em Toledo, sendo registrados 88.202 votos válidos.
O resultado confirmou a preferência majoritária do eleitorado toledano por Flávio Bolsonaro, mas também demonstrou a presença de um eleitorado expressivo favorável a Lula.
Entretanto, os resultados das urnas não permitem identificar a preferência política de empresários, funcionários ou estabelecimentos comerciais. O voto é secreto, individual e protegido pela legislação eleitoral.
Empresário de Toledo reage e denuncia informações falsas
Um empresário de Toledo, responsável por uma empresa com mais de quatro décadas de atuação no município, manifestou indignação ao tomar conhecimento de mensagens que associavam seu estabelecimento a determinada posição política.
Em um desabafo divulgado nas redes sociais, ele negou qualquer manifestação partidária em nome da empresa.
“Quero fazer aqui um esclarecimento sobre algumas mensagens que estão circulando em grupos de WhatsApp, associando a nossa empresa a uma posição partidária ou a determinada tendência política. A empresa nunca se manifestou politicamente. Isso é mentira, isso é fake news! Quem está publicando e compartilhando essas informações precisa ter mais responsabilidade”, declarou.
O empresário também manifestou sua insatisfação com os acontecimentos relacionados às eleições, mas reforçou que suas opiniões pessoais não representam um posicionamento institucional do estabelecimento.
“Eu também estou indignado com o que aconteceu nas eleições. Todos estamos indignados. Muitas vezes, não conseguimos falar o que pensamos porque há muita gente de olho, pronta para nos prejudicar.”
Ele voltou a negar qualquer vinculação partidária e pediu que as mensagens fossem retiradas de circulação.
“Quero deixar bem claro que a empresa nunca assumiu qualquer posicionamento partidário. Você que está publicando ou compartilhando essas mensagens precisa ter responsabilidade. Isso é mentira, é fake news! Por favor, apague essas publicações e preste atenção ao que está fazendo.”
Ao defender a história do empreendimento, o empresário destacou os valores que, segundo ele, orientam sua atuação.
“Estamos há 42 anos em Toledo e nunca defendemos bandeira partidária alguma. Estamos aqui para trabalhar, preservar os bons costumes, defender a liberdade e valorizar a família.”
Boicotes também atingem empresas em outras regiões do Brasil
O caso registrado em Toledo acompanha um movimento que ganhou repercussão nacional após a reeleição de Lula.
Reportagens publicadas nesta quarta-feira (28) pela Folha de S.Paulo e pelo UOL mostram que listas semelhantes estão circulando em cidades de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
Em algumas localidades, empresários relatam ameaças, mensagens hostis, cancelamento de serviços e receio de perder clientes. Há casos de comerciantes incluídos nas relações mesmo sem terem manifestado publicamente sua preferência eleitoral.
Uma empreendedora do interior paulista relatou que, embora tenha feito críticas ao governo Lula, manifestou apoio à candidatura do presidente em seu perfil pessoal por considerar a decisão uma defesa da democracia.
Também foram identificadas publicações de apoiadores de Flávio Bolsonaro defendendo boicotes a viagens ao Nordeste e até a doações destinadas a pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Essas manifestações ampliam a preocupação com os efeitos da polarização política sobre a economia, as relações profissionais e a convivência entre brasileiros.
Prejuízo pode atingir toda a economia de Toledo
Em Toledo, a divulgação de listas com empresas supostamente vinculadas a partidos políticos levanta uma questão que ultrapassa as preferências eleitorais: os possíveis prejuízos aos próprios trabalhadores e à economia municipal.
Uma empresa não é formada apenas por seus proprietários. Por trás de cada estabelecimento estão funcionários, fornecedores, prestadores de serviços e famílias que dependem daquela atividade econômica.
Um eventual boicote pode comprometer o faturamento de pequenos negócios, reduzir o movimento comercial e afetar empregos e renda.
O impacto também pode atingir trabalhadores que sequer compartilham das opiniões políticas atribuídas aos proprietários.
Além disso, a divulgação de informações não verificadas pode prejudicar a reputação de empresas construídas ao longo de décadas, como demonstra o desabafo do empresário toledano.
A liberdade de escolha do consumidor deve ser respeitada, assim como o direito de expressar opiniões políticas. Entretanto, atribuir posições partidárias sem comprovação, promover ameaças ou estimular perseguições pessoais e profissionais ultrapassa o campo do debate democrático.
Democracia exige respeito às diferenças
As eleições de 2026 terminaram nas urnas, mas as divergências políticas permanecem presentes na sociedade.
Em Toledo, Flávio Bolsonaro recebeu mais de 60 mil votos no segundo turno, enquanto Lula conquistou mais de 27 mil. Ambos os grupos de eleitores integram a mesma comunidade, utilizam os mesmos serviços, frequentam o mesmo comércio e contribuem para o desenvolvimento do município.
A democracia assegura o direito de votar, discordar, criticar governos e defender diferentes projetos políticos, sem que isso deva resultar em perseguições ou constrangimentos.
O comércio não pode se transformar em campo de retaliação eleitoral, especialmente quando empresas são apontadas como apoiadoras de determinado candidato sem que essa informação tenha sido comprovada.
A conta da intolerância, quando atinge empresas, não fica restrita a quem votou em Lula ou em Flávio Bolsonaro. Pode chegar aos empregados, aos fornecedores, às famílias e à própria economia de Toledo.
Passadas as eleições, o desafio é preservar o respeito, a liberdade de opinião e a convivência democrática. Afinal, a escolha de um candidato não deve transformar vizinhos, clientes, empresários e trabalhadores em adversários permanentes.





