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Antes que apaguem as digitais

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A coluna de hoje é dos leitores/eleitores — e vem antes que as feridas fechem, a memória encurte e alguns tentem reescrever a eleição como se nada tivesse acontecido.

Recebi inúmeras manifestações. Uma delas tratou do Executivo de Toledo que, segundo o leitor, passa longe de compreender a boa política, ou de saber fazer politica. Citou, inclusive, o caso de servidores cedidos que, politicamente, estariam muito distantes da atual gestão e que, ao lado de outros dois candidatos a deputado de Toledo, teriam participado de uma grande comemoração pela derrota de Dilceu Sperafico. Para assinar a nota, ele diz que esse mesmo servidor, terá sua cedência renovada. Imagino como fica quem esta sendo prejudicado por esse servidor!

Outros leitores falaram das vaidades, dos erros, das rasteiras e das escolhas que ajudaram Toledo a terminar, mais uma vez, sem a representação política que tanto cobra.

Já o Dr. Ivanir Locatelli preferiu resumir o momento com “Meu País”, de Zezé Di Camargo & Luciano:

“Aqui não falta nada, aqui só falta tudo.”

Na política toledana, às vezes a música explica melhor do que muito discurso.

Uma festa pela eliminação e outra pela não eliminação

Meus urubus vieram grunhir que a noite eleitoral em Toledo teve comemoração para todos os gostos. Dois candidatos a deputado pelo município teriam celebrado — e muito — a não reeleição de Sperafico, tratado nos bastidores como um de seus principais algozes políticos.

Até aí, faz parte do jogo.

O detalhe saboroso vem da lista dos presentes: entre os mais animados estaria uma conhecida personagem de entidade regional, cedida pelo Município, que, pelo visto, não coleciona admiradores e defensores apenas no Legislativo. Também teria trânsito confortável entre integrantes do primeiro escalão do atual prefeito.

Moral da história? Na política, ninguém perde sozinho — e ninguém comemora sozinho.

Uns festejam a própria vitória; outros, a derrota alheia.

E, quando a música para, todos voltam a se encontrar nos mesmos corredores.

Jogo político zerado? Só até a próxima rodada.

Ainda respingam as urnas

As urnas fecharam, mas o assunto em Toledo parece longe de terminar.

Leitores da Gazeta continuam enviando suas impressões sobre o resultado e, principalmente, sobre quem deveria carregar parte da conta pela ausência de representantes locais na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal.

E há uma observação pertinente: talvez esteja fácil demais jogar tudo no colo do eleitor.

Em 2026, os candidatos de Toledo concentraram 72,6% dos votos válidos para deputado estadual no município. Mesmo assim, nenhuma cadeira veio para a cidade. Para deputado federal, também nenhum dos oito candidatos locais conseguiu se eleger.

Ou seja: antes de condenar apenas quem apertou os botões da urna, talvez seja interessante olhar também para quem montou o tabuleiro.

Os esquecidos de ontem

Um leitor lembrou daqueles nomes que, eleições atrás, carregavam algumas centenas de votos e, juntos, chegavam perto de mil.

Depois passaram a ser tratados quase como mobília velha: úteis enquanto estavam no lugar certo, dispensáveis quando deixaram de servir ao projeto de alguém.

Alguns acabaram acolhidos por outros grupos.

E aí aconteceu aquilo que a política ensina desde sempre: voto não aceita desaforo eternamente.

Quem despreza liderança local durante quatro anos não deveria se espantar quando ela encontra outro endereço na eleição seguinte.

O espelho também vota

Outro comentário recebido pela coluna mira quem já ocupou cadeira importante em Toledo, inclusive o comando do Executivo, e depois passou a reclamar de abandono político.

Na leitura desse eleitor, faltou apenas um pequeno detalhe antes das reclamações: o espelho.

Há quem cobre união em torno de Toledo, mas, quando chega a eleição, escolha trabalhar por candidaturas de fora.

Depois que a conta não fecha, começa a velha temporada de procurar culpados.

É sempre mais confortável apontar o dedo para os outros. O problema é que três dedos ficam voltados para quem aponta.

E essa matemática política costuma ser constrangedora.

Um pé em cada canoa

Também chegou à coluna uma crítica recorrente: o famoso apoio múltiplo.

Segundo leitores, houve liderança tentando embarcar em duas, três e até mais candidaturas.

Um candidato aqui, outro acolá, uma fotografia com cada grupo e, se possível, nenhuma porta fechada para 2027.

Estratégia brilhante — até alguém lembrar que o eleitor tinha um voto para deputado estadual e um para federal.

Na política toledana, pelo visto, teve gente distribuindo apoio como se a Justiça Eleitoral tivesse liberado voto por atacado.

Os bem calçados também chutaram

E não foram apenas os supostamente esquecidos que tomaram outros caminhos.

Na avaliação enviada por leitores, houve também gente muito bem acomodada politicamente, contemplada com espaço, estrutura e proximidade com o poder, que preferiu atuar contra alguns dos bons nomes que Toledo tinha para deputado estadual e federal.

Ou seja: enquanto o discurso público era de que “Toledo precisa voltar a ter representantes”, nos bastidores cada grupo tratava de cuidar do próprio quintal.

Depois veio o domingo da eleição.

E, na segunda-feira, apareceu uma novidade extraordinária:

ninguém sabia quem tinha deixado o portão aberto.

Matar para não crescer

Uma das manifestações mais duras recebidas pela Gazeta sustenta que parte da velha política local prefere impedir o crescimento de novas lideranças a permitir que alguém ganhe independência.

A lógica, segundo esse leitor, seria simples: liderança forte demais deixa de obedecer; liderança dependente continua pedindo bênção.

Se essa leitura estiver correta, Toledo vive uma contradição curiosa: reclama há anos que perdeu força política, mas alguns de seus próprios atores teriam medo justamente de permitir que novas forças se consolidem.

É como reclamar que a árvore não dá sombra depois de passar quatro anos podando a raiz.

A culpa é sempre do eleitor?

Por fim, talvez essa seja a pergunta que melhor resume os recados enviados à coluna.

É evidente que o eleitor decide. É dele o voto.

Mas eleição proporcional também é articulação, partido, chapa, alianças, estrutura, mobilização e capacidade de construir apoios dentro e fora do município.

Os números mostram situações bastante diferentes entre os candidatos. Beto Lunitti teve 89,3% de sua votação estadual concentrada em Toledo, enquanto Natan Sperafico obteve mais votos fora do município do que dentro. No conjunto, os candidatos locais também receberam votação expressiva fora da cidade.

Talvez, portanto, o enterro da representação política de Toledo tenha muitos padrinhos.

Só está faltando aparecer alguém disposto a assumir a paternidade.

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Edição nº2831 – 07/10/2026

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