Por Marcos Antonio Santos
Morte de cão baleado mobiliza a cidade, escancara aumento de denúncias e reforça atuação mais rigorosa da Proteção e Defesa Animal
A morte do cachorro Abacate, nessa terça-feira, em Toledo, após ser atingido por um disparo de arma de fogo, causou grande comoção na cidade e ganhou repercussão em todo o país. O caso trouxe à tona não apenas a brutalidade do crime, mas também a crescente preocupação com os maus-tratos contra animais no município, que vem registrando um aumento expressivo no número de denúncias em 2026.
Segundo a coordenadora de Proteção e Defesa Animal, Cinthia Moura, somente no mês de janeiro deste ano já foram contabilizadas 60 denúncias formais pela Ouvidoria do Município. “Até o dia 29, já chegamos a esse número. Isso dá uma média de mais de duas denúncias por dia, sem contar os chamados feitos por WhatsApp e pelas redes sociais”, afirma.
De acordo com Cinthia, esse aumento não significa necessariamente que os maus-tratos cresceram, mas sim que a população está mais atenta e informada. “Nós atribuímos esse número ao trabalho que estamos realizando. Estamos divulgando os casos, informando o que caracteriza maus-tratos e explicando quais são os canais de denúncia. A população de Toledo está mais sensível, está prestando mais atenção nos animais”, explica.
Ela cita exemplos comuns de situações denunciadas, como animais mantidos 24 horas presos, acorrentados com correntes curtas, sem condições adequadas de bem-estar. “Antes, muitas pessoas tinham medo de denunciar, diziam que não queriam confusão com o vizinho. Mas o animal ficava ali sofrendo. Hoje, a população está tendo mais coragem de denunciar”, ressalta.
A coordenadora reforça que as denúncias podem ser feitas de forma sigilosa, e orienta que sejam registradas pela Ouvidoria para que o denunciante receba um número de protocolo e possa acompanhar o andamento do caso. “A denúncia anônima é válida, mas ela não gera protocolo. Pela Ouvidoria, a pessoa consegue acompanhar e receber uma resposta”, pontua.
Leis mais rígidas e punições efetivas
Outro fator importante para esse novo cenário, segundo Cinthia, são as mudanças na legislação. As leis se tornaram mais severas e passaram a assegurar de forma mais clara os direitos dos animais. “Hoje existem multas, existe responsabilização criminal. Em muitos casos, fazemos boletim de ocorrência e a pessoa responde criminalmente, além das multas aplicadas pelo município”, afirma.
Ela é enfática ao dizer que a causa animal em Toledo passou a ser tratada com seriedade. “Nós não estamos brincando de causa animal. Estamos sendo incisivos. Estamos aplicando multas altas, gerando boletins de ocorrência e trabalhando em conjunto com a Polícia Civil para que as pessoas sejam responsabilizadas”.
Cinthia rebate uma das críticas mais comuns ouvidas pela equipe. “Muita gente fala que denunciar em Toledo não dá em nada. Eu posso garantir que nesta gestão está dando sim. Ontem mesmo toda a equipe estava no fórum acompanhando uma audiência. O acusado de maus-tratos estava preso, e nós estávamos lá”, relata.
Ela também chama atenção para a importância de denúncias bem feitas. “Às vezes a pessoa diz que denunciou há mais de um ano, mas quando vamos verificar, não tem protocolo, o endereço está errado ou faltam informações. Por isso pedimos: façam denúncias bem embasadas, com endereço correto, fotos e vídeos, se possível, para que o atendimento seja mais ágil”.

O caso Abacate
Abacate era um cachorro comunitário da região do Tocantins, cuidado pelos moradores da vizinhança. Ele não era acompanhado diretamente pela Proteção Animal, mas era monitorado e assistido pela própria comunidade, que fornecia alimentação e cuidados. O animal já estava com a castração agendada para o dia seguinte ao ocorrido.
No dia do crime, Abacate saiu do local onde costumava ficar e retornou ferido. Os moradores perceberam que ele estava sangrando e o levaram imediatamente para atendimento veterinário na clínica Felinos, onde foi atendido pela médica veterinária doutora Talita, parceira da Proteção Animal e que cede sua clínica para a realização de feiras de adoção aos sábados.
“Ela me ligou e disse: ‘Cinthia, chegou um animal baleado aqui’. Eu pedi para segurar, que eu estava indo”, relata a coordenadora. Ao chegar à clínica, os primeiros socorros já estavam sendo realizados. Exames confirmaram que Abacate havia sido atingido por um projétil de arma de fogo, que entrou pelo abdômen e atravessou o corpo do animal.
“O furo de entrada era pequeno, mas o estrago interno foi enorme. Perfuração de intestino, rim, órgãos vitais. Nós temos as imagens, mas não divulgamos. Infelizmente ele não resistiu”, conta Cinthia.
O caso foi imediatamente encaminhado à Polícia Civil, e a Proteção Animal decidiu divulgar a ocorrência nas redes sociais. “Muita gente fala que é mídia, que é marketing, mas a internet, quando bem utilizada, é uma ferramenta muito poderosa”, afirma.
A repercussão superou todas as expectativas. Informações começaram a chegar de moradores da região, artistas compartilharam o caso, páginas com milhões de seguidores divulgaram a história. “O Brasil inteiro olhou para Toledo. E olhou com a certeza de que aqui os maus-tratos serão tratados de forma mais rígida”, destaca.
Mais estrutura e responsabilização
Após o caso, a Proteção Animal já iniciou conversas com a Secretaria responsável e com o prefeito para ampliar a equipe. “Nós precisamos de mais pessoas para sermos ainda mais ágeis no atendimento das denúncias e evitar que casos como esse se repitam”, afirma Cinthia.
Ela também alerta para outro problema recorrente: o abandono de animais. “Tem muita gente que aluga uma casa, vai embora e deixa o animal para trás. Se isso for detectado e comprovado, a pessoa pode ser responsabilizada”, explica. Nesses casos, a orientação é registrar boletim de ocorrência para que a Polícia Civil possa identificar e punir o responsável.
Ato em defesa dos animais
Como forma de mobilização e conscientização, será realizado um ato em defesa dos animais neste sábado, dia 31, a partir das 10h, no Parque para Cães (ParCão), estrutura instalada no Parque do Povo Luiz Cláudio Hoffmann. O evento busca dar visibilidade à causa animal, cobrar justiça pelo caso Abacate e reforçar que maus-tratos não serão mais tolerados em Toledo.





