Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Fonte de dados meteorológicos: Wettervorschau 30 tage
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Cursos direcionados ou viagens premeditadas?

h

Facebook
WhatsApp
LinkedIn

Ou é uma saga das diárias?

Chamou (e muito) a atenção desse jornalista a sequência de contratações feitas pela Câmara Municipal de Toledo em favor de uma mesma empresa de cursos “direcionados” a agentes públicos. Só em 2025, nos primeiros quatro meses do ano, já foram três eventos no mesmo local, com a mesma empresa e — claro — e quase com os mesmos vereadores de sempre.

O verdadeiro curso: “Como garantir a diária perfeita”

O último episódio dessa série foi autorizado pela Portaria nº 84, de 10 de abril de 2025. Nela, os vereadores Dudu Barbosa, Roberto de Souza e Valdomiro Bozó foram oficialmente “designados” para participar do evento “Fiscalização Orçamentária, Financeira e Administrativa por parte da Câmara Municipal”, realizado presencialmente em Curitiba/PR.

Matemática criativa: 3 vereadores x 3,5 diárias = R$ 9.450

Cada edil recebeu 3,5 diárias para comparecer ao evento nos dias 22, 23, 24 e 25 de abril de 2025. No bolso de cada um, pingaram R$ 3.150,00 em diárias. Mas como dizem por aí: o diabo mora nos detalhes. Esses valores são apenas das diárias. Ainda tem outras depesas que irei postar na coluna de amanhã.

Programação estranha, coincidências ainda mais

Consultando o folder oficial do evento, vemos que a programação começava no dia 22 (terça-feira) às 14h, com uma consultoria prevista das 16h30 às 18h30. Ou seja, pela lógica, se a inscrição começava só à tarde, não haveria necessidade alguma de sair de Toledo no dia 21 — ainda mais sendo feriado (o que proíbe o uso do carro oficial).

E mais: se as inscrições já haviam sido realizadas no portal da Câmara antes da viagem (como indicam os documentos), qual seria a necessidade de “confirmar” novamente em Curitiba? Link da contratação

Consultoria opcional… viagem obrigatória?

Outro ponto curioso: a tal “consultoria” do dia 22 era opcional. Não está claro quem a prestaria, nem foi feita menção no folder. Então, pergunto:

Se era opcional, qual o motivo da pressa para sair um dia antes?

Que tipo de “consultoria” requer feriado, carro oficial e diárias adiantadas?

Se for confirmado que a consultoria sequer ocorreu, é altamente recomendável que os nobres vereadores devolvam parte dos valores recebidos.

O mesmo filme: atores repetidos, roteiro duvidoso

A sequência de “cursos” com a mesma empresa, sempre atendendo os mesmos parlamentares, começa a soar, no mínimo, estranho — para não dizer escandaloso.

Spoiler: vem mais por aí

Baixei todas as portarias e liberações de diárias de vereadores de 2021 até agora. Amanhã, vou postar os números completos.

Spoiler: tem muito caroço nesse angu.

Exemplo de responsabilidade

Chumbinho Silva, que esteve em Brasília durante a 24ª Marcha dos Vereadores, organizada pela UVB, juntamente com Marli e Kathi, valorizou o curso e os palestrantes. O evento reuniu mais de 3 mil vereadores de todo o Brasil. Segundo Chumbinho, mais de 70% dos inscritos apenas passavam o código de barras de presença e logo desapareciam no meio do evento, “sumindo na braquiária”, como descreveu.

No entanto, nós, vereadores de Toledo que representávamos nosso Legislativo, respeitamos o erário público e participamos efetivamente das palestras, como, por exemplo, a ministrada por João Rodrigo, de Chapecó.

“Eu anotei todos os temas abordados e produzi um relatório de 24 páginas sobre o que aprendi”, afirmou Chumbinho.

Parabéns aos três edis, pois, aqui, creio que não houve farra.

A ética, a polícia e a vida

A ética é uma dessas palavras que todos adoram pronunciar, mas que poucos gostam de carregar no bolso — ainda mais quando ele já está recheado de diárias, bônus e vantagens.

É curioso pensar como a ética, que deveria ser como a farda de um policial — visível, inegociável, parte do ser — muitas vezes vira apenas um adereço opcional, como uma gravata mal posta num evento qualquer. O policial de verdade, aquele que jurou proteger e servir, carrega a ética como um escudo. Não importa se é domingo ou feriado: a integridade não tira férias.

Já na vida pública — e, arrisco dizer, também na vida pessoal de muita gente — a ética parece ser tratada como uma peça de teatro ruim: repete-se a encenação para poucos espectadores atentos, enquanto nos bastidores reina o improviso da conveniência.

Em Toledo, virou quase uma comédia de erros: cursos “imperdíveis” em Curitiba, diárias generosas, deslocamentos em feriado — e uma pressa misteriosa em sair da cidade antes da hora. Como explicar essa pressa toda para chegar num evento que começava só à tarde? Alguma “consultoria opcional” tão vital que exigisse violar a lógica — e talvez até o bom senso?

A vida é cheia de consultas opcionais: a consciência é uma delas. Cada um decide se a escuta ou não.

Enquanto alguns vereadores pareciam aplicar o curso “Como tirar férias com verba pública”, outros, como Chumbinho Silva e seus colegas de jornada, mostraram que ética ainda pode ser uma matéria viva, ensinada não por palestrantes, mas por atitudes. Eles não apenas compareceram aos eventos; participaram, anotaram, relataram. Fizeram aquilo que deveria ser o mínimo, mas que hoje parece o máximo.

Talvez a grande lição seja essa: a ética — seja na polícia, na política ou no café de casa — não precisa de plateia, de portaria oficial, de diária assinada. Ela é silenciosa, discreta e custa caro. Não no bolso — mas na renúncia a vantagens fáceis, nos “nãos” ditos quando seria mais lucrativo dizer “sim”, na coragem de respeitar até o que ninguém está vendo.

No fim das contas, viver eticamente é como ser um bom policial: é cumprir o dever mesmo quando ninguém está olhando. Ou principalmente quando ninguém está olhando.

Veja também

Publicações Legais

Edição nº2810 – 24/02/2026

Cotações em tempo real