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Por Celso Moretti e Eliseu Alves*

Machado, foice e fogo abriram espaço para uma agricultura moderna. Essas tecnologias básicas, do tempo dos nossos avós, foram substituídas por fertilizantes, arados, tratores e muita tecnologia de forma intensa a partir dos anos 1970. Hoje, há sensores, drones, veículos semiautônomos, softwares, integração sustentável, satélites, geoprocessamento de dados, biotecnologia. O arado e a grade praticamente saíram de cena e entrou uma nova tecnologia, o sistema de plantio direto (SPD) sobre a palha. Adotado em quase 50 milhões de hectares anualmente em todo o Brasil, o SPD reduz a erosão, contribui para a redução da emissão de gases de efeito estufa, auxilia no controle de ervas daninhas e economiza água.

O conhecimento sobre como produzir alimentos é maior do que nossa capacidade de adotá-lo. Existe todo um sistema de produção de um país que foi mudando ao longo das últimas cinco décadas. Antes, maçãs, soja, trigo, vinho e bovinos eram produzidos em regiões específicas e, em geral, apenas durante determinada época. Hoje, encontramos uma diversidade enorme de alimentos por todo o Brasil e colhemos até três safras — algo que agricultores de outros países custam a acreditar. Quem é jovem pode perguntar a seus pais como era no passado. Tropicalizamos e adaptamos plantas e animais.  Solos pobres foram transformados em terra fértil e desenvolvemos uma plataforma de produção sustentável sem igual em todo o mundo.  

A substituição não foi completa, nem para todos, é verdade.  Em muitas regiões e para muitas famílias, fertilizantes, máquinas e insumos relevantes ainda não estão disponíveis. Apesar de nosso volume de tecnologia, resultado dos avanços da ciência brasileira, o conhecimento mais avançado sobre produção ainda não chegou a todos. Infelizmente, em muitos lugares, a chamada agricultura moderna ainda convive com práticas antigas, como o uso do fogo para a limpeza de áreas. Normalmente, isso ocorre nos locais onde insumos para aumentar a produção ainda não estão disponíveis ou não há renda para sua aquisição.

Contudo os avanços são inegáveis. A maior parte dos agricultores hoje possui acesso à televisão. Muitos gerenciam sistemas, máquinas e equipamentos sofisticados e não podem prescindir de conhecimento científico. A internet ainda não tem um alcance global, mas oferece significante suporte à produção. Precisamos avançar na conectividade, que somente chega a 30% dos estabelecimentos rurais.

As transformações no campo fazem com que muitos agricultores residam nas cidades e seus filhos almejem sonhos distantes do mundo rural — a melhoria dos transportes e da renda familiar contribuiu muito para consolidar esse tipo de comportamento. Com a modernização, nossa poderosa agricultura, movida por máquinas, equipamentos e poucos trabalhadores, pode fazer com que o campo aumente a produção e fique despovoado. Programas de transferência de renda e assentamentos rurais, ao mesmo tempo em que ajudam a dar suporte no dia a dia e reduzem sofrimentos, perdem em energia para as forças de mercado. Paralelemente, um movimento pode contribuir, por sua vez, para a retenção dos jovens no campo. Trata-se do crescimento das startups do agro (as agritechs), que têm tornado o campo novamente atrativo para jovens empreendedores.  

A agricultura brasileira evoluiu como nenhuma outra nas últimas cinco décadas. Éramos importadores nos anos 1960 e agora somos um dos maiores produtores de alimentos, fibras e bioenergia do planeta. Nosso agricultor adotou a produção como desafio e a ciência como bússola. O resultado é enorme produtividade e competitividade, com o uso de práticas sustentáveis. É possível até mesmo dispensar a ocupação de novas áreas para produzir.

O agricultor brasileiro, em sua grande maioria, tem iniciativa, é criativo, corajoso. Ele alia produção de alimentos com preservação e adota soluções tecnológicas inovadoras e sustentáveis capazes de competir e superar qualquer sistema agrícola. O setor agropecuário — antes, dentro e depois da porteira — cresceu assombrosos 24% em 2020, mesmo com a pandemia de Covid-19. Empregos foram poupados (e gerados) e alimentos não faltaram nas gôndolas dos supermercados em todo o Brasil. Em 2021, o Valor Bruto da produção (VBP) ultrapassará R$ 1 trilhão, um fato inédito.

A pesquisa pública continua dando suporte para a capacidade dos agricultores de inovar e superar os desafios, tornando-os referência mundial. Esses mesmos agricultores sabem que não basta apenas produzir para alimentar nossa população e exportar excedentes. Há necessidade de criar condições para garantir o abastecimento e a qualidade do ambiente nas próximas décadas.

Com o trabalho dos agricultores, o Brasil seguirá alimentando centenas de milhões de pessoas em todo o globo. Faremos isso de forma competitiva e sustentável, respeitando o meio ambiente e nossos recursos naturais.

Parabéns, agricultores!

*Celso Moretti é presidente da Embrapa e Eliseu Alves, ex-presidente e um dos fundadores da Embrapa